Cultura

Lanzarote não esquece José Saramago

Lanzarote não esquece José Saramago

Dois dias após a morte de José Saramago, a imprensa canária continuava, ontem, a dar destaque à figura "islena", fazendo cobertura das últimas homenagens, já em Portugal, mas também recordando-o como uma das figuras que ficarão para sempre ligadas à ilha espanhola de Lanzarote. As bandeiras e os sorrisos nas conversas sobre o desaparecimento do Nobel da literatura permaneciam a meia haste.

Sendo domingo e o comércio fechado, foi nas duas livrarias do aeroporto de Arrecife que se sentiu uma "corrida" aos livros do escritor. "Aqui, já não temos nem um. Tínhamos a 'Jangada de pedra' e aquele outro amarelo com o elefante, mas os passageiros foram comprando", referiu, ao JN, Marilena, empregada de uma das tabacarias.

Numa outra, restava apenas uma das obras do autor, escondida entre outros livros e quase passando despercebida. "Ainda aí está? Nem imagina as pessoas que me perguntaram se tínhamos algum livro para levar de recordação, e eu disse que não. Que pena, estava fora do lugar", lamentou uma funcionária.

"É sempre assim quando morre algum autor famoso. Parece que só nesses momentos as pessoas se lembram. Não imaginam que eles passaram a vida inteira a escrever livros para elas. Mas mais vale tarde...", comentou, poeticamente, num encolher de ombros.

Na localidade de Tías, onde se situa a casa de Saramago e de sua mulher, Pilar del Rio, a tranquilidade com vista para o mar e a terra preta, de origem vulcânica, era intocável. As portas da biblioteca, com mais de 1800 volumes pertencentes ao escritor, estavam trancadas. E o silêncio só deixava ouvir o esvoaçar das pequenas folhas da oliveira plantada por José Saramago no centro do jardim de "A Casa". A oliveira robusta contemplava, agora sozinha, todo o cenário místico que levou o escritor a apaixonar-se por Lanzarote e esvoaçava ao sabor do vento quente, da saudade e das muitas memórias.

Flores para cemitério de Tías

As dezenas de coroas de flores que foram entregues na biblioteca de forma a homenagear o escritor foram levadas para o cemitério de Tías, por ordem de Pilar del Rio, que pediu para que fossem distribuídas pelas diversas campas.

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Muitos dos que passaram na noite de sexta-feira pela casa de José Saramago, onde o seu corpo estava em câmara ardente, quiseram escrever-lhe as últimas homenagens. "Aqui nos deixas, náufragos sobre uma jangada de pedra, num mundo à deriva" e "Os que souberam dar prioridade à ternura e à liberdade nunca morrem" foram algumas das mensagens que arrepiaram o momento.

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