Cultura

O exame de Português de 12.º ano e os 125 anos de Fernando Pessoa

O exame de Português de 12.º ano e os 125 anos de Fernando Pessoa

No ano em que se comemora o 125.º aniversário de Fernando Pessoa e em vésperas de exame nacional de Português de 12.º ano, este artigo é, especialmente, para aqueles que o vão realizar, para que compreendam a importância do estudo da sua poesia.

De facto, estudar Fernando Pessoa é como entrar numa casa de espelhos e vislumbrar a complexidade do ser humano.

Na verdade, quer a poesia do ortónimo quer a dos heterónimos são viagens interiores que percorrem a mente, espécie de labirinto, em busca de "essa coisa é que é linda". Os poemas são pedaços de um "mar de sargaço" que traduzem os anseios mais profundos do Homem.

Assim, começando pelo ortónimo, Fernando Pessoa, "autêntico fingidor", vive entre os conflitos do sentir e do pensar, buscando a inconsciência consciente para ser feliz. Refugia-se no desejo de uma infância perdida, aquela que nunca teve e em que tudo parece tão simples como a vida de um gato que brinca na rua.

Nos heterónimos dissemina-se à procura do todo.

Em Alberto Caeiro sente-se, mais uma vez, a tensão de alguém que recusa o pensamento para ser feliz, pois, na verdade, "pensar é estar doente dos olhos", "incomoda como andar à chuva".

O mestre é um sensacionista e procura a verdade do mundo através dos sentidos. Assume-se, por isso, como antimetafísico e diz ser o "guardador de rebanhos" e que os seus pensamentos são todos sensações.

Ricardo Reis é outro heterónimo de Fernando Pessoa.

Na sua poesia epicurista faz a apologia do "carpe diem", pois a única certeza é o dia de hoje. Porém, segundo ele, há que viver com moderação para evitar sofrimentos tão certos como a corrente do rio para o mar. Há, no fundo, uma certa sensatez no discurso de Reis, pois tem a profunda consciência da transitoriedade da vida e, por isso, procura viver sem sobressaltos.

No entanto, apesar desse desejo de apatia/ataraxia, há na poesia deste heterónimo uma tensão consciente na busca de uma existência semelhante à das "rosas do jardim de Adónis", que nascem já com o sol nascido e morrem antes de ele se pôr.

Por outro lado, em Álvaro de Campos sentimos o reverso do estado contemplativo e aparentemente sereno de Ricardo Reis.

Assim, ler a poesia de Campos futurista é como andar numa montanha-russa, é como circular numa pista de alta velocidade com os olhos vendados. Este heterónimo procura "sentir tudo de todas as maneiras" e a "Ode Triunfal" faz a apologia das máquinas e da civilização que, convenhamos, às vezes, é capaz de nos trucidar.

Mas, depois de "vir da festa", Campos regressa aos seus fantasmas, numa fase intimista que o acorrenta ao ortónimo.

A ressaca dos sentidos traduz-se num cansaço profundo, num "supremíssimo cansaço" e numa frustração agoniada de um passado que não foi capaz de ter trazido guardado na algibeira.

E Pessoa é tudo isso, é o complexo composto de todas as pessoas que o habitam, num entrelaçar de fios que cruzam o pensamento de alguém que, não o sendo, tem todos os sonhos do mundo.

Estudar Fernando Pessoa é um processo de consciencialização do que somos ou daquilo que não desejamos ser. É ver nas palavras as imagens deformadas do ser humano como se estivéssemos na grande casa de espelhos: a alma.

* Professora de Português e formadora do acordo ortográfico

jn.acordoortografico@gmail.com

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG