Cultura

"Nós somos a geração que tem o poder para mudar o mundo"

"Nós somos a geração que tem o poder para mudar o mundo"

Com Miguel Gonçalves, fundador do "So you think, you can pitch", plataforma que junta, pela terceira vez, empresários e pessoas que querem trabalhar, a conversa é tu cá tu lá. Podem criticar-lhe o discurso, acusá-lo de ser demasiado otimista ou de estar desfasado da realidade do país. A tudo, ele responde com o lema: "Dormir pouco, comer depressa, trabalhar muito".

Como é que se consegue agradar a gregos e a troianos, a empresários e a pessoas que querem trabalhar, como tu conseguiste?

Não agrado a todos, só a quem gosta de trabalhar. A minha fórmula não é mágica nem a mais inteligente: é a mais dura. É a que te faz dormir menos horas e ficar mais ansioso, a que te faz estar sempre ativo a empurrar uma coisa para frente quando todos te dizem que vai falhar. Há uma certeza que tu podes ter: se ficares sentado, não vai acontecer nada.

Portugal tem 600 mil desempregados, 15% jove, e 85% de empresas com menos de dez pessoas. Como é que o Pitch, que na edição anterior criou 80 postos de trabalho e criou seis empresas, fura este cenário?

Trabalhando. Mas o Pitch não é para toda a gente, é para malta nova. Ser novo é uma questão de atitude: podes ser nova aos 40 e velha aos 20. Não é um projeto para gente que quer emprego, é para gente que quer trabalhar, experimentar, começar com colaborações imprevistas.

Esse universo está identificado?

Está. Se quisesse acabar com o desemprego em Portugal, não fazia nada, porque não dá para mudar o mundo todo ao mesmo tempo. Um medicamento também não funciona para todas as patologias. O Pitch não é para uma senhora que tem 50 anos, três filhos, trabalhou 20 anos numa empresa, foi despedida e tem de fazer uma reconversão de 360 graus na carreira. Mas se tens 22 anos, sabes pensar, ler e escrever bem, és rápido, não tens compromissos, filhos, casa ou carro para pagar, és só tu e o teu futuro, e queres fazer coisas, o Pitch é para ti. O critério em início de carreira não deve ser quanto vou ganhar, mas quanto vou crescer.

As empresas associadas ao Pitch também foram sujeitas a critério de seleção?

Claro! Das 365 mil que existem no país, escolhemos 101 que são extraordinárias. Não queremos trabalhar com todas, só com as que se reveem neste espírito, querem fazer coisas e empurrar a malta nova para a frente. Isto é sobre ser bom. É sobre empresários que querem livrar-se do feitiço das coisas feias, sobre empreendedores que têm mangas arregaçadas e coração à mostra, que são sinceros. Não interessa se têm apenas três funcionários ou três mil, mas se querem crescer e fazer outros crescer.

O Pitch é sobre criar o sítio certo, à hora certa, com as pessoas certas?

A ideia é: nós colocamos o vaso, a terra, a água e a luz. As pessoas só têm que pôr a semente. Se vais atrás de dinheiro ou da empresa com o logótipo perfeito podes ficar muito tempo à espera. Não dá para esperar uma tarde, quanto mais três meses! É o momento para pensar diagonal. O mercado está a mudar.

O mercado está a mudar. E as pessoas?

Também. Somos a geração que tem nas mãos o poder para mudar o mundo. Há novamente navegadores em Portugal: não são alimentados por ter muito dinheiro, mas por fazer a diferença; não querem ter um carro comprido, mas fazer coisas que ajudem os outros, não querem comprar uma casa grande onde estão sempre tristes, mas trabalhar 14 horas num sítio mágico onde sentem o coração a bater.

A flexibilidade do mercado de trabalho faz parte?

Hoje, até aos 30 anos, o normal é trabalhares em 10 ou 15 empresas. Não é mau, é bom.