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"Dou cada vez menos importância ao romantismo"

"Dou cada vez menos importância ao romantismo"

"A desordem natural das coisas" é o novo livro de Margarida Rebelo Pinto, dominado pelas vozes masculinas. Um retrato do amor em tempos de Tinder.

Um triângulo amoroso que une três homens e mulheres muito distintos entre si está na base do mais recente romance de Margarida Rebelo Pinto, "A desordem natural das coisas".


Após 20 anos a escrever sobre o amor, que segredos é que este ainda lhe esconde?

Não escrevo há 20 anos sobre o amor, isso é nos livros, escrevo há 30 na imprensa. O amor tem sempre segredos porque cada ser humano é um universo gigante e quanto tempo demoramos a conhecer o universo? Nem que vivêssemos mil vidas isso seria possível. Além disso o amor passa por muitas fases que têm a vier com a idade, os sonhos, a forma como o vivemos pela primeira vez. São tantas variáveis dentro e fora de nós que é impossível saber tudo sobre ele.

Defende que o amor romântico apenas fragiliza as mulheres e desculpa os homens. Isso quer dizer que, não só nos livros como na sua vida, está cada vez menos romântica?

Não, quer dizer que dou cada vez menos importância ao romantismo e mais valor àquilo que chamo A Construção Amorosa. O amor romântico é espetacular para escrever poemas e canções de amor, mas sem uma vida amorosa real, torna-se uma patologia. O ser humano é distraído por natureza, passa muito tempo a sonhar acordado. É verdade que o movimento do Romantismo tirou poder à mulheres, é absolutamente necessário acabar de vez com o estereótipo da mulher enfraquecida pela causa amorosa, porque a maior força das mulheres é justamente a capacidade de amar. Mas é amar com um pé na cama e outro no chão.

O amor em tempos de Tinder está condenado a ser precário e efémero?

O tempo não respeita o que é feito sem ele. O Tinder é uma espécie de feira popular, com oferta diversificada de atrações, mas quase sempre com o prazo de validade muito curto. Comparo o Tinder a dar voltas de carrinhos de choque. Nunca gostei, nem quando era miúda, muito menos agora. Prefiro assistir de camarote. Nunca me canso de observar a condição humana, essa é a minha matéria prima que uso para tecer as minhas ficções.

Esta "Desordem natural das coisas" significa que as relações tal como as concebemos desde sempre estão ameaçadas? Que riscos advêm daí?

Não, significa que desenhamos a vida a régua e esquadro e depois á a própria vida que nos troca as voltas. Nunca nada é linear, as coisas vão e vêm, as pessoas amam e deixam de amar e depois voltam a apaixonar-se pela mesma pessoa, o amor fura todos os dogmas e todas as regras por isso o que nos rege não é assim tão seguro. E perante uma mudança inesperada, há quem abrace o desconhecido e quem se esconda dele.

O trio de protagonistas do livro tem visões distintas sobre o amor e aquilo que procuram. Ainda assim, acha que aquilo que os une é mais do que o que os separa?

O que une duas pessoas que se amam não é só o amor que sentem um pelo outro, é quererem as mesmas coisas ao mesmo tempo. Às vezes já nem sequer existe amor, mas os objetivos em comum são tão fortes que sustentam uma relação tal como meia dúzia de estacas podem suster uma ponte. No romance há uma mulher, Madalena entre duas histórias de amor que também são o passado e o presente e dois homens, António e Rodrigo, um que arrisca o salto de fé - porque assumir uma relação é sempre um salto de fé - e outro que não arrisca o salto. Como canta o Jorge Palma, é tão bom arriscar o salto e voar, sentir de novo a tua mão. Também é um romance sobre a liberdade de escolhermos aquilo que nos faz felizes.

Como defende no livro, coração partido resolve-se com tempo, silêncio ou o novo amor. Qual é, para si, o remédio mais eficaz?

A mudança. Sair da zona de conforto que nos prende ao fundo do medo como náufragos. Mudar aquilo que está ao nosso alcance até que a vida mude aquilo que não conseguimos mudar.

Há dois homens no centro da história e apenas uma mulher. Essa atenção à visão masculina deve-se ao facto de, como já disse, ter cada vez mais leitores homens?

Não, aconteceu assim. Oiço as histórias de muitos homens, sempre fui confidente de muitos homens e tento percebê-los, o que é sempre difícil para uma mulher. Este é o primeiro romance em que os homens têm mais voz do que as mulheres, mas enquanto estava a escrever nem me apercebi. Nem mesmo quando publiquei. Quem me chamou a atenção foi a minha mãe que é das minhas leitoras mais sérias e atentas.

Recorreu ao artifício do tempo paralelo nesta narrativa. O que lhe possibilitou este recurso?

Senti que fui mais longe na minha viagem de escritora. Ser escritor é saber contar a mesma história de mil maneiras diferentes. Quando as pessoas chegam ao final do capítulo do tempo paralelo, sentem um murro, um buraco na barriga, um arrepio. Até eu senti quando reli o livro. A vida daquele homem poderia ter sido diferente e não foi, porque a vida é sempre outra coisa, é um misto das decisões que conseguimos tomar e das que não conseguimos. Somos o resultado de uma coleção privada e secreta de derrotas e de vitórias que só nós conhecemos.

Dezenas de mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros no ano que agora termina. Este drama sem fim é um sinal extremo das relações doentias que minam a nossa sociedade? (como se combate este drama?

Não existem dados disponíveis para saber se o número de mortes por violência doméstica está a aumentar ou há mais informação sobre tal flagelo. O amor passional foi e será sempre potencialmente violento por causa dos estados obsessivos que desenvolve: ciúme extremo, sentido de posse irracional, prepotência, comportamentos de controlo sobre o outro. Uma relação doentia tem muito pouco ou nada de amor. Quem ama protege, ouve e deixa o outro partir se for melhor para ele. O amor é o oposto da violência. Enquanto a ideia da paixão doentia estiver associada ao amor, as pessoas não vão conseguir proteger-se.

A ficção tem vindo a perder terreno nos últimos anos. Não só para outras formas de entretenimento, como a TV e internet, mas também para outros géneros literários. O gosto das histórias está mesmo a perder-se?

Não acredito nisso. Todos precisamos de histórias para sermos humanos empáticos, dignos e completos. Os livros não se abatem e os romances estão para a alma e o coração como a água para o planeta.

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