Cinema

E a Palma de Ouro de Cannes foi para a Suécia

E a Palma de Ouro de Cannes foi para a Suécia

Ruben Ostlund junta-se ao grupo restrito de vencedores de duas Palmas, com "Triangle of Sadness".

2022 foi um dos festivais de Cannes onde, até à última hora, ninguém ousava apostar num candidato que pudesse ser consensual para o júri presidido por Vincent Lindon. Por exemplo, na edição anterior, goste-se ou não de "Titane", corria fortemente o rumor de que o filme de Julia Ducournau ia levar a Palma de Ouro, ideia confirmada fora de tempo pela imensa gaffe de Spike Lee, anunciando-o logo no início da cerimónia.

E após a derradeira subida da passadeira vermelha deste ano, o júri do mais importante festival de cinema do mundo conseguiu tirar da cartola uma inesperada Palma de Ouro: a "Triangle of Sadness", do sueco Ruben Ostlund, que já vencera com "O Quadrado", juntando-se assim ao grupo restrito de detentores de duas Palmas de Ouro. Um filme em três partes, que segue a mesma linha de crítico irónica sobre a vida de hoje, através de um casal de modelos que parte num cruzeiro que não terá o destino desejado. Uma viagem escatológica, não para todos os gostos, mas que seduziu o júri de Cannes. Depois de um quadrado, um triângulo, numa quebra qualitativa evidente, uma quase cópia do dispositivo do filme anterior, mas palmarés de festivais são assim.

Festejando a 75ª edição do festival, o júri entregou um prémio especial comemorativo aos irmãos Dardenne, pelo seu drama social "Tori et Lokita". Não é dos melhores filmes dos belgas, mas a história destes dois jovens africanos que tentam sobreviver clandestinamente tem todos os condimentos do seu cinema.

O Grande Prémio, uma espécie de prémio de consolação, foi atribuído ex-aequo a "Stars at Noon", da francesa Claire Denis, filmado na América Central, e "Close", do belga Lukas Dhont, sobre a amizade trágica entre dois jovens de 13 anos.

A Caméra d'Or, premiando o melhor primeiro filme apresentado em todas as secções do festival foi entregue à dupla de realizadores Gina Gammell e Riley Keough, por "War Pony", sobre a história cruzada de dois jovens da reserva de índios de Pine Ridge, no Dakota do Sul. O filme fez parte da seleção de Un Certain Regard, que nos últimos anos retomou o seu espírito inicial de descoberta de novos talentos.

PUB

A iraniana Zar Amir-Ebrahimi venceu merecidamente o prémio de melhor atriz, por "Holy Spider", onde interpreta o papel de uma jornalista que investiga a morte de prostitutas na cidade sagrada de Mashhad, no Irão, recriando de forma ficcionada um episódio verídico ocorrido há 20 anos. O filme foi rodado na Jordânia e a atriz anunciara na conferência de imprensa que, depois de fazer este filme, lhe será difícil regressar ao seu país natal.

Já o prémio de interpretação masculina foi para o sul-coreano Song Kang-ho, pelo novo filme de Koreeda Hirokazu, sobre a problemática do abandono de bebés por jovens mulheres desesperadas. Um ator de que nos recordamos bem pela sua presença em "Parasitas".

O Prémio do Júri proporcionou um dos grandes momentos da noite, com a subida ao palco do veterano Jerzy Skolimovski, pelo seu filme "Eo", centrado no percurso de um burro, a quem o realizador agradeceu, finalizando o seu discurso com um valente zurro. Mas o júri decidiu entregar este seu prémio a outro filme, o belo "Le Otto Montagne", de Felix van Groeninger e Charlotte Vandermeersch, história de amizade nas montanhas italianas.

Tarik Saleh recebeu o prémio de argumento por "Boy from Heaven", que também dirigiu, um thriller político centrado na mais importante escola corânica do mundo árabe, situada no Egito. Saleh também não pode regressar ao seu país, tendo-se exilado na Suécia. O Prémio de Realização coube também à Coreia do Sul, com Park Chan-wook a mostrar de novo a sua mestria em "Decision to Leave", um policial clássico sobre um investigador da polícia e a relação que vai construindo com uma jovem chinesa que no espaço de um ano enviuvou, violentamente, duas vezes.

A passadeira vai ser retirada nas próximas horas, mas o cinema vive. Vão ao cinema, é a grande mensagem deste Festival de Cannes.

PALMARÉS

Palma de Ouro: "Triangle of Sadness", de Ruben Ostlund (Suécia)

Prémio do 75º Aniversário: "Tori et Lokita", de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Grande Prémio: "Close", de Lukas Dhont e "Stars at Noon", de Claire Denis

Prémio do Júri: "Eo", de Jerzy Skolimovski e "Le Otto Montagne", de Felix van Groeninger e Charlotte Vandermeersch

Prémio de Realização: Park Chan-wook, por "Decision to Leave", da Coreia do Sul.

Prémio de Argumento:Tarik Saleh, por "Boy from Heaven"

Ator: Song-Kang-ho, por "Broker", de Koreeda Hirokazu (Coreia do Sul)

Atriz: Zar Amir-Ebrahimi, por "Holy Spider", de Ali Abbasi

Caméra d"Or: "War Pony", de Gina Gammell e Riley Keough (Estados Unidos)

Prémio de Curta-Metragem: "The Water Murmurs", de Jianying Chen (China)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG