Cannes

E ao sétimo dia Cronenberg trouxe a filosofia do novo sexo

E ao sétimo dia Cronenberg trouxe a filosofia do novo sexo

Mestre canadiano do terror clínico abana o festival com "Crimes of the Future".

Numa cena de "Crimes of the Future", o novo Cronenberg, em competição pela Palma de Ouro de Cannes, a personagem interpretada por Kristen Stewart tenta beijar a que tem o corpo de Viggo Mortensen. Primeiro, mete os seus dedos na boca dele, como que para investigar algo que desconhece. Depois, junta-lhe os lábios. Sem grande reação, Viggo diz-lhe qualquer coisa como: "desculpa, mas não tenho muito jeito com o velho sexo".

"Crimes of the Future" introduz-nos então o novo sexo, numa sociedade futurista onde o corpo humano entrou em mutação. A cirurgia como espetáculo, a autópsia como definitivo orgasmo, a tatuagem nos órgãos principais do nosso corpo, são as novas formas de êxtase.

A história centra-se nas personagens interpretadas por Viggo Mortensen e Léa Seydoux, um casal de artistas que fazem performances ao vivo de intervenções no interior do corpo de Viggo, comandadas por Léa. Mas a morte de uma criança, às mãos da própria mãe, desencadeia uma investigação que vai colocar em causa o seu trabalho.

O luso-guineense Welket Bungué é o agente da polícia, impondo a sua presença e a sua voz e mostrando que, depois de ser o protagonista da nova versão de "Berlin Alexanderplatz", a carreira internacional é uma realidade.

Cronenberg tinha mostrado receio de que muita gente saísse da sala durante os primeiros cinco minutos do filme. Com a habituação do espectador de cinema a situações mais extremas - que as há - não será provavelmente o caso. Pelo menos não o foi na sessão matinal da imprensa diária, onde todos assistimos até ao fim.

Até porque, mais importante do que os momentos mais gráficos que nos recordam estarmos na presença do mestre do terror clínico, a matéria de que se serve o filme, que repete o titulo de um dos primeiros Cronenberg, apesar de nada ter a ver com a sua trama, é sobretudo a discussão sobre a filosofia deste novo sexo, em diálogos que resumem em grande parte o que é o corpo da obra - no sentido mais endémico - deste mestre canadiano.

PUB

Quase sempre em interiores, recriados em estúdio em Atenas, por razões fiscais, e marcado por uma portentosa partitura de Howard Shore, "Crimes of the Future" é cinema, na sua formulação não só temática, mas também estética e narrativa, e é para ver e ouvir lá, na sala escura.

A estreia do filme ainda não está garantida em Portugal, com alguns distribuidores hesitantes em investir uma soma bastante avultada numa altura em que os números de venda de bilhetes de cinema em Portugal são verdadeiramente assustadores. Para que filmes como "Crimes of the Future" possam continuar a ser vistos na sala escura é preciso que quem goste de cinema não se contente com a sala lá de casa.

Seis anos depois de "A Criada", o sul-coreano Park Chan.wook, notabilizado pelo filme de culto "Oldboy - Velho Amigo", volta a assinar um filme, com "Decision to Leave". Filmado com a elegância e o ritmo narrativos a que o cinema desta origem já nos habituou, "Decision to Leave" é um policial puro e duro, centrado num investigador da polícia, que conhece a viúva de um homem cujo corpo foi encontrado em baixo de uma falésia, afastando-se desde logo a tese do suicídio. Um ano depois, o novo companheiro dessa mulher aparece morto. Será coincidência? É essa a questão que se coloca o protagonista, levando-nos pela sua mão a um vibrante jogo entre polícias e criminosos de que desejamos descobrir a resolução.

Nas secções paralelas do festival, a que voltaremos para um possível balanço, destacou-se ontem à noite a presença na Quinzena dos Realizadores da escritora francesa Annie Ernaux, de que vimos recentemente adaptações de duas das suas obras, "O Acontecimento" e "Uma Paixão Simples". A ocasião foi a estreia mundial de "Les Années Super 8", onde a escritora já octogenária pegou, juntamente com um dos seus filhos, em mais de cinco horas de filmes de família, feitos entre 1972 e 1981, filmados pelo marido antes da separação do casal.

Com um lindíssimo texto lido pela própria realizadora, o filme acompanha as viagens do casal, traçando ainda um retrato da época. Um filme de que se deseja ardentemente que possa vir a ser descoberto pelo público português, até porque, além de viagens à Albània e a Moscovo, "Les Années Super 8" inclui imagens únicas de Lisboa e Évora na década de 1970 ainda antes do 25 de Abril.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG