Eduardo Lourenço

Pilar del Río: "Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte"

Pilar del Río: "Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte"

Eduardo Lourenço "abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los", escreveu José Saramago sobre o ensaísta. Pilar del Río recorda o que unia os "dois pesos pesados".

No dia em que o país se despediu do autor de "Memorial do Convento", passaram em junho dez anos, Eduardo Lourenço muniu-se desse romance histórico que nos deu Baltazar e Blimunda, e nele inscreveu uma dedicatória ao amigo. "Agora terás toda a eternidade para ler". Saramago seguiu com Lourenço dentro.

Na vida seguiram juntos, também. José Saramago e Eduardo Lourenço "eram cúmplices, queriam-se muito bem, eram diferentes e estavam confortáveis com isso. Nenhum pretendia que o outro fosse quem não era. Eram muito amigos, respeitavam-se e admiravam-se, viajaram muito juntos, trocaram muitas ideias", lembra, ao JN, Pilar de Río, jornalista e companheira de uma vida inteira do Nobel da Literatura.

A presidente da Fundação José Saramago enternece-se na tristeza. "Os criadores têm uma capacidade tremenda para inventar formas de despedida distintas que mais não são que formas de amor. Aquelas palavras escritas naquele momento com aquela luz representam o último abraço de amor entre eles."

Triste mas não fatalista. Pilar del Río admite que "agora ficámos órfãos do peso pesado que era Eduardo Lourenço, pensador que deu coerência à cultura em português, tanto em Portugal como no Brasil, como antes ficáramos órfãos de José Saramago".

"Choramos hoje", diz, mas o futuro não acaba aqui. "Ficámos mais pobres, mas não ficamos sós. Felizmente, há muitos pensadores em Portugal, mais jovens, herdeiros de José e de Eduardo, que seguem o seu caminho. Pessoas que se deixaram inspirar por eles, que aprenderam com eles, que pensam com o mesmo rigor poético."

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Com este rigor poético?

"Uma irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra de Eduardo Lourenço", escreveu Saramago em agosto de 2009, nos seus diários. "Se o Só de António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal, faltava-nos quem sobre essa tristeza reflectisse e meditasse. Veio Eduardo Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los."

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