Cultura

Elvis Costello: "Nunca confiei nos políticos"

Elvis Costello: "Nunca confiei nos políticos"

Aos 56 anos e com uma carreira que remonta à década de 70, Elvis Costello - o britânico mais norte-americano de todos - insiste em mostrar serviço, virtude tanto mais louvável quanto praticamente todos os colegas da mesma geração já quase abdicaram de criar, vivendo a expensas do passado.

"National ransom", o novo disco, que amanhã chega às lojas, parte da crise financeira que há dois anos varre o Planeta, mas não se fica por aí: as histórias continuam a ser o elemento propulsor do que faz.

Por que diz que este disco se destina a tempos como este, de falência colectiva?

Basta olharmos à volta e vemos lojas fechadas por todo o lado. Limito-me a escrever sobre o que vejo. E, quando os sinais são tão evidentes, não há mesmo como escapar a isso. Na canção que dá título ao disco, descrevo vidas precárias que foram severamente afectadas pelo impacto da crise.

É difícil ser optimista em tempos como este?

Como músico, esforço-me por apresentar as diferentes perspectivas das personagens que crio. Mesmo quando o tom pode parecer pessimista, uma canção é sempre um acto de esperança.

Depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, deixou de acreditar nos políticos?

A questão é que nunca acreditei nem confiei neles. Não me recordo de alguma vez ter votado num partido, por exemplo. Nem sequer coloco em causa a dificuldade da missão que os políticos têm pela frente, mas a própria natureza do cargo obriga-os a um conjunto de cedências que faz com que seja um pouco utópica a ideia de que eles foram eleitos para defender os nossos interesses.

A capa do disco "National ransom" é bastante sugestiva: um lobo vestido de banqueiro em fuga com os bolsos cheios de dinheiro. Sente que, após a tremenda crise financeira que varre o Mundo, os banqueiros não foram julgados como deveriam?

Não creio ter chegado a ler no "New York Times" qualquer notícia sobre a execução pública de um banqueiro.... O negócio prossegue, como é habitual.

Acha que o sistema financeiro aprendeu com os erros?

O nosso jogo não começou hoje nem ontem. Há uma continuidade nas acções humanas, até porque, bem vistas as coisas, ambicionamos todos o mesmo desde os primórdios. Ontem como hoje, procuramos o impossível.

As pessoas deveriam protestar mais com as irregularidades que aconteceram?

O problema é que quem foi verdadeiramente afectado pela crise está legitimamente mais preocupado em sobreviver do que em protestar. Quando se perde a casa e o emprego num ápice, queremos, quanto antes, voltar a conquistar o que já tivemos em tempos. Felizmente, cresci num país em que, por força das convulsões, como as guerras, as pessoas sempre questionaram o Poder. Uma das grandes vantagens de ser músico, em vez de filósofo político, é que posso construir histórias a partir dessa mesma realidade que serve de base aos ensaístas e teóricos. E chego a mais gente.

Muitas das histórias descritas em cada uma das canções reportam-se ao início do século passado. É um período histórico que lhe interessa particularmente?

Não tive a pretensão de ser 100% rigoroso do ponto de vista histórico. É certo que muitas das canções do disco estão ambientadas em períodos históricos mais ou menos remotos, mas, mesmo nestes casos, o que espoletou o meu interesse foram acontecimentos actuais. O passado e o presente estão em diálogo permanente, por muito que ignoremos isso.

Este é um disco cheio de personagens. Significa que o devemos ouvir como se de um livro se tratasse?

Um livro é um livro e um disco é um disco. Cada qual ocupa o seu lugar e tem a sua função. Há óbvias ligações entre ambos, mas acredito que a música é mais literal, ou seja, pertence ao tempo em que foi feita.

Numa das canções mais entusiasmantes do disco, "Jimmy stood in the rain", adopta um canto diferente do habitual. Ainda gosta de surpreender os fãs?

É óptimo quando isso acontece, desde que a surpresa seja boa, claro. Há artistas que têm horror à mudança. Preferem repetir os mesmos processos vezes sem conta, com receio de desapontar os seguidores. Não penso dessa maneira. O desafio consiste em querermos presentear os nossos fãs com processos novos, sem colocar de lado o que já fizemos. Em "Jimmy stood in the rain", a minha voz saiu dessa maneira. Foi a canção que pediu esse tipo de voz e não o contrário. No disco, há outras canções que exigiram um tom mais agressivo e a minha voz acompanhou essa necessidade.

Não é comum vermos um artista tão produtivo: 33 álbuns noutros tantos anos. Isso significa que é um artista de inspiração fácil ou um trabalhador incansável?

A vida tem-me dado oportunidades e limito-me a não desperdiçá-las. Muitos dos discos que gravei resultaram de colaborações ou parcerias. Trabalho bastante, mas não é nenhuma obsessão. Se a minha editora me dissesse que tinha que lançar um disco na próxima semana, caso contrário, o Mundo entraria em colapso, duvido que o conseguisse. Tenho sempre muitas ideias, mas tudo tem de seguir o seu ritmo. Sem pressões.

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