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"Em Portugal, só os malucos escrevem livros"

"Em Portugal, só os malucos escrevem livros"

Editor da Saída de Emergência, Luís Corte Real estreia-se na publicação com "O Deus das moscas tem fome", livro protagonizado por um detetive do oculto chamado Benjamim Tormenta que mergulha no submundo da Lisboa do final do século XIX.

O confinamento ajudou Luís Corte Real a dedicar-se finalmente à escrita, após anos a fio a iniciar e a abandonar projetos. Com um pé no fantástico e outro no romance histórico, o responsável editorial da Saída de Emergência dá forma a Benjamim Tormenta, personagem marcante pela forma como congrega em iguais doses o Bem e o Mal.


Tem um percurso muito ligado aos livros, sobretudo como editor. Porquê só agora a estreia como autor?
É um livro feito de muito suor e lágrimas. Não foi um impulso. Andei décadas a querer escrever e a procurar o livro certo. Abandonei muitos projetos até encontrar a fórmula que queria. São muitas centenas de horas de trabalho, que exigem uma disciplina e capacidade de trabalho muito grandes. Temos um mercado pequeno, que não compra muitos livros, sobretudo num género, como o horror e o fantástico, que não é presença assídua nos tops. Sei que estou a escrever para um nicho, apesar de achar que o livro pisca o olho ao 'mainstream'. Tem elementos de romance histórico, mas também de 'thriller' e policial. O fantástico é apenas uma parte do livro.

O que custou mais foi o arranque?
O mais difícil foi a disciplina. Por vezes escrevia 30 páginas, mas quando via que faltavam 300 para terminar o livro, desanimava. Sempre tive muitas ideias para os livros. Apenas sentia que não era capaz de concretizar um livro com tantas páginas. Hoje, não passo uma noite sem escrever. Acumula-se uma tensão tal que tenho que começar a escrever.

Ser editor e conhecer bem o mercado aumentaram a sua indecisão na estreia?
Ser editor faz-me concluir que só os malucos é que escrevem em Portugal. O retorno da escrita é quase nenhum. Mesmo para os editores que vendem alguma coisa, é muito pouco. As tiragens são minúsculas. O retorno de notoriedade também é baixo. Não é como um futebolista ou ator de novela. Por isso, quem estiver em busca de notoriedade é melhor escolher outra atividade. O único motivo é o gosto, a satisfação própria. Trabalho com centenas de autores estrangeiros e, aí sim, o campeonato é outro. Há notoriedade, há cheques chorudos, digressões mundiais. Em Portugal, um autor é um corajoso, porque tem que ter outras fontes de rendimento.

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No género fantástico há pouca tradição em Portugal.
É curioso, porque no cinema e nas séries televisivas os produtos mais consumidos são os que pertencem a esse género. Apesar de os jogos de tabuleiro venderem muito bem, assim como a banda desenhada, a literatura fantástica é um filho menor, claramente. É um género conhecido, mas olhado com alguma desconfiança. Só que, quando chega ao 'mainstream', é um enorme sucesso. Basta ver a popularidade de "A guerra dos tronos", "Stranger things" ou "Star wars". Em parte isso acontece porque não há tradição do género em Portugal. Há um autor que publica um ou outro livro, mas não há continuidade. Não temos um Poe ou um Lovecraft. Falta um corpo de autores. A academia prefere uma escrita mais realista, que pisca o olho aos prémios.

Este livro condensa todas as suas influências literárias?
Completamente. Quando escrevo, estou constantemente a homenagear os filmes, os livros, as séries e as bandas desenhadas que me acompanharam nos últimos 40 anos. Claro que quero ter a minha voz, o meu universo. Não quero estar a plagiar, mas também não quero estar a esconder quem me influenciou. Faço questão que as pessoas as percebam, mas vendo também quem é o protagonista, um detetive do oculto que navega por uma Lisboa queirosiana mas onde há realidades sombrias nos palacetes e nos becos. É uma cidade que associamos a Londres, mas porque não fazê-lo também em Lisboa? Afinal, é uma cidade muito mais antiga e com colónias nos quatro cantos do Mundo. Há muitos segredos nesta Lisboa onde o Benjamim Tormenta circula. Quis dar essa dimensão mística à cidade, tal como fazem com Paris ou Nova Iorque.

É o primeiro detetive do oculto da nossa literatura?
Acho que sim. Só Londres tem 150 detetives do oculto, espalhados pela literatura do fantástico e BD. Lisboa não tinha e, por isso, fiz questão de criar. Eça de Queirós foi o meu guia nesta Lisboa do século XIX. A sua obra foi fundamental para esta descrição, mas depois tive que acrescentar as partes da cidade a que ele não ia, como os becos e as catacumbas.

Inspirou-se em alguém em particular para criar este detetive?
Ele é uma mescla de personagens, incluindo o Sherlock Holmes ou o Mulder e a Scully dos X-Files. Tudo isto somado, resulta numa personagem enigmática. Ele próprio desconhece muita coisa de si próprio, características que vai descobrindo à medida que a história se desenrola.

Dominar o oculto é fundamental para a resolução dos casos?
Sim, porque ele só é chamado para casos assustadores. É olhado com um misto de encanto, receio e temor. É uma relação de amor-ódio. É uma espécie de Rasputin, mas, enquanto este tentava ser um vilão na corte do czar, o Tormenta tenta ser um herói.

O Benjamim Tormenta é um anjo caído por excelência, como escreve no prefácio o Luís Filipe Silva?
Acho que sim. Ele identificou a relação do Tormenta com o seu demónio, que se junta à sua vontade de fazer o Bem. É nesse fio da navalha que ele tenta caminhar, por vezes resvala para um lado e por vezes para outra.

Convoca figuras reais para a trama, como o Fontes Pereira de Melo ou o D. Luís. O que o levou a acrescentar esse toque de realidade a uma história pertencente ao fantástico?
Tentei ser o mais realista em tudo o que coloquei no livro, como as descrições das ruas ou as falas das personagens. Mas, quando aparece o inexplicável, o livro não renega essa faceta. O lado fantástico só tem força quando está contextualizado num grande realismo. O livro poderia perfeitamente ser um romance histórico ou de época, mas com laivos de fantástico. Tive que pesquisar imenso, para evitar os anacronismos. Tentei que as pessoas viajassem no tempo, ouvindo o barulho das carroças ou do macadame e os pregões das vendedoras. Só faz sentido viajar no tempo se for para recriar uma época de forma realista.

O que o atrai no final do século XIX ao ponto de ter situado a ação do livro neste período?
Sempre gostei muito da época vitoriana. Conhecia melhor a de Londres, por força dos livros e dos filmes. Por isso é que foi importante ler Eça, Camilo ou Júlio Dinis, porque eles levam-nos para esse Portugal oitocentista. Ainda pensei em situar na Lisboa de 1930, mas havia muito mais informação sobre o final do século XIX.

Agrada-lhe o poder da literatura de tornar tudo possível, convocando figuras de outro tempo?
É uma magia essa capacidade de criar mundos. A felicidade é ainda maior quando há leitores com quem partilhamos esses ambientes. O George Martin dizia-me que, quando escrevia os seus livros, ele era também o realizador, o diretor de efeitos especiais e o produtor. Não há limitação de orçamentos. Por isso é que criou tudo em grande, com exércitos e dragões.

Sem imaginar que um dia iria conseguir materializar essas ficções.
Exatamente. Ele começou por escrever para televisão e, como conhecia bem as limitações, canalizou para a escrita dos livros tudo o que a sua imaginação pedia. Mal sabia ele que iria ter tudo adaptado e filmado. Era giro ver adaptada a filme esta Lisboa queirosiana de que falo no livro.

Admite a hipótese de, no futuro, escrever um romance protagonizado por Benjamim Tormenta e não apenas contos?
Neste momento tenho dois contos terminados. Um deles tem mais de 200 páginas, o que, tecnicamente, faz disto já um romance. No entanto, em vez de publicar de forma isolada, prefiro juntar mais quatro ou cinco histórias completamente interligadas. Vou colocar o Tormenta a percorrer várias cidades europeias. A vantagem dos contos é que o ritmo da ação é muito superior. No entanto, comercialmente, é uma desvantagem. Os portugueses não gostam de livros de contos. Prefiro vender este livro como um romance em partes.

O livro tem uma autora convidada, o que não é uma prática muito comum em Portugal. Porque optou por esse modelo?
Quis repescar uma tradição da revista "Pulp", dos anos 1930, em que havia universos partilhados. Hoje não se faz isso. Por isso, convidei a Anabela Natário para escrever um conto. O próximo também terá um autor convidado.

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