Cinema

Emma Dante: "Os espectadores portugueses são muito calorosos e participativos"

Emma Dante: "Os espectadores portugueses são muito calorosos e participativos"

Depois da peça "La scortecata", Emma Dante estreia em Portugal o novo filme, "As irmãs Macaluso".

O Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e o Teatro Nacional São João, no Porto, levaram à cena nos últimos dias a peça de Emma Dante, "La scortecata". Agora chega aos cinemas o último filme que a autora e realizadora dirigiu, com base também numa sua peça, "As irmãs Macaluso". A história de três gerações de mulheres, marcadas por uma tragédia da juventude, vencedora de vários prémios no Festival de Veneza.

O seu filme baseia-se numa peça que também escreveu.

Na peça havia um palco completamente vazio, as irmãs vinham da escuridão e regressavam à escuridão. O filme deu-lhes um endereço: Via Messina Marine, uma artéria muito importante em Palermo que liga a cidade à autoestrada, a partir do porto.

Há algo de autobiográfico nesse texto original?

O filme é ambientado na Sicília, mas em lugares que não pertencem à minha infância. Cresci numa zona residencial e o filme decorre numa zona suburbana, em frente a uma praia industrial que revela um mar pouco romântico, onde em alguns pontos da costa se depositou lixo que já lá se encontra há anos.

Quando é que teve a ideia de transformar a peça num filme?

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Depois da peça circular durante alguns anos, senti a necessidade de transferir esta história para o grande ecrã e comecei a trabalhar na adaptação com o apoio de Giorgio Vasta e Elena Stancanelli, que me ajudaram a afastar da estrutura teatral da peça, revendo a história em relação a outro meio de expressão completamente diferente, o cinema.

Quais são as principais diferenças?

Eu sabia que para fazer uma boa transposição, a peça tinha de ser traída e modificada. Na verdade, o filme é muito diferente da peça. Diria que são duas obras totalmente independentes. Foi um grande desafio. Nunca me senti forçada ou perdida. A experiência foi forte e necessária.

O seu trabalho é fiel à sua Sicília natal. Pensa que a Sicília está mal representada no cinema, que o cinema dá uma ideia errada da região?

A Sicília é uma terra de caráter. É fascinante, cheia de estímulos e contradições, a sua beleza e o seu desespero são como pão para a boca dos artistas. Mas o risco é mostrar o bilhete-postal, atirar o lado caricatural à cara dos espectadores, que é o que menos me interessa, que me irrita, sendo siciliana. Um certo tipo de retórica prestou um mau serviço a uma terra que esconde segredos belos e terríveis.

O filme fala de memória, daqueles momentos a que não podemos voltar, sejam erros ou paixões. São temas que a atormentam?

Eu diria que são temas que nos pertencem. Erros, paixões, remorsos fazem parte do que carregamos às costas na vida. Só temos de nos preparar para que não nos quebrem o coração. As irmãs Macaluso vivem mal o seu sentimento de culpa, condenam-se por se terem distraído um momento, por não conseguirem ficar juntas até ao fim.

O filme é também um elogio da mulher. Como classifica as mulheres sicilianas?

São as capitãs das famílias, as verdadeiras líderes, fortes e pragmáticas, mesmo que sempre um pouco na sombra e em silêncio. A minha mãe é a minha maior fonte de inspiração. Morreu aos 59 anos e dedicou toda a vida aos filhos, desistindo de tudo. Creio que tinha muitos sonhos e aspirações. Escrevo para ela, para o seu sonho não realizado, para realizar o seu desejo, para lhe dar voz.

Como é que foi o processo de casting para encontrar atrizes que interpretam as mesmas personagens em três momentos das suas vidas?

O meu diretor de casting foi fundamental, com a sua pesquisa incessante e meticulosa. A passagem do tempo e a criação de mutações foi o que mais me interessou. Queria atrizes diferentes que fossem parecidas. Pensar nos corpos deformados pelo tempo que passava era uma das coisas mais estimulantes que fazíamos.

Elas trabalharam em conjunto?

Ensaiámos com as 12 atrizes, construindo um alfabeto comum de gestos e olhares que iriam ajudar a criança, a adulta e a idosa a assemelharem-se nas várias fases da existência. Somos corpos muitos diferentes ao longo das nossas vidas. É disto que trata o filme, esta liberdade de contar a metamorfose de um corpo sem quaisquer truques. Estava interessada em mostrar a mudança radical que o tempo, um grande cirurgião, produz no nosso corpo.

Como conjuga o trabalho no teatro com a carreira no cinema?

Tanto o teatro como o cinema são a minha vida. Há espaço para ambos. Uma é o complemento da outra e fico feliz como uma criança quando começo um novo projeto. Neste momento estou a preparar o meu terceiro filme, baseado numa peça minha chamada "Misericordia". É a história de três prostitutas que adotam um rapaz deficiente, filho de uma das suas companheiras, espancada até à morte por um cliente.

"La scortecata" esteve agora em cena em Lisboa e no Porto. Como decorreu a colaboração com os teatros portugueses?

É também a história de duas irmãs, mas muito velhas e decrépitas. Dificilmente se suportam, mas não podem viver uma sem a outra. Para passar o tempo na sua vida miserável, encenam um conto de fadas. Os espectadores portugueses são muito calorosos e participativos. É uma alegria estar num país especial com dois projetos tão importantes para mim: cinema e teatro.

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