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Emmanuel Carrère transformou a dor em matéria literária

Emmanuel Carrère transformou a dor em matéria literária

"Yoga", o livro mais pessoal na já de si de imensamente pessoal obra literária de Emmanuel Carrère, é uma fascinante viagem pelo pensamento.

Em torno do híbrido conceito da autoficção, popularizado na última década por autores como o norueguês Karl Ove Knausgaard, muitos livros de interesse mais do que discutível têm vindo a ser publicados, contribuindo para que os leitores encarem com algum desdém cada nova incursão nesse peculiar subgénero.

Dessa amálgama indistinta de obras escapa Emanuel Carrère, um dos mais estimulantes escritores franceses do nosso tempo, cujos livros são exemplares no modo como conseguem partir da sua esfera íntima sem se deixarem consumir pelo narcisismo exacerbado, tão típico em autores que elegem o eu como material de trabalho literário.
Numa obra fortemente dominada pelo cunho pessoal, "Yoga" consegue, ainda assim, acrescentar novas perspetivas ao seu labor experimental, ancoradas num propósito firme: seguir o fio do pensamento.

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É esse mesmo pendor que explica o caráter fugidio de um livro tão singular como este, que pode sem dificuldade ser catalogado como romance, não-ficção ou até manual de auto-ajuda.

A dimensão espiritual, expressa na angústia de um homem com uma propensão inata para a autodestruição, é a cola que junta todos estes frágeis vértices.

Na primeira parte do livro, vemos como Emmanuel Carrère tenta inutilmente domar estes fantasmas interiores, ao fazer um retiro de meditação numa região isolada, durante o qual procura convencer-se de que a via para uma existência tranquila pode, afinal, não ser tão sinuosa como sempre temera.

Mas a realidade, sempre ela, não tarda muito em vir à sua procura, quando é informado, em plena clausura, de que um dos seus maiores amigos fora morto durante o ataque terrorista à sede do jornal satírico "Charlie Hebdo".

Segue-se uma lenta descida de Carrère aos infernos de si mesmo, que chega a incluir o internamento numa clínica psiquiátrica, o recurso a estupefacientes milagrosos (ou quase) e até eletrochoques.

No final desta longa jornada de sofrimento, o autor não se declara um homem subitamente novo ou transformado, como é habitual em circunstâncias análogas. Ciente de que a depressão é um fantasma do qual nunca se libertará em absoluto, prefere gozar a placidez dos dias, embalando-os em palavras.

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