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Escrever de dentro da própria vida

Escrever de dentro da própria vida

Reedição de um dos mais aclamados livros de Teolinda Gersão, especialista da narrativa curta, é uma das melhores formas de assinalar os seus 40 anos de vida literária.

Engolir de um só trago a totalidade da vida, abarcar com um só gesto a infinidade de experiências humanas, são objetivos inutilmente perseguidos por qualquer escritor. E, todavia, por muito utópica que seja a tarefa de colocarmos a literatura a replicar, ainda que a uma escala infinitesimal, a imensidão existencial, há autores que ficam um tudo nada mais perto dessa imaginária meta.

Nos livros de Teolinda Gersão, mas com especial expressão nas narrativas curtas, é a vida, sempre a vida, que encontramos, a pulsar de forma latejante. Seja sofrida, fantasiosa, pérfida, monótona ou harmoniosa, há sempre uma ligação direta ao real nas suas múltiplas dimensões.

É como se a autora de "O cavalo de sol", que assinala em 2021 quatro décadas de vida literária, escrevesse de dentro da própria vida, sem intermediações ou obstáculos que a desviem dessa tarefa superior de plasmar nas páginas de um livro os abismos negros que cada ser concentra no seu íntimo mais profundo.

Originalmente editado em 2007 e agora reeditado pela sexta vez, "A mulher que prendeu a chuva" volta a confrontar-nos com a mestria narrativa de uma escritora cuja concentração verbal ou ausência de formalismos são colocados ao serviço da história.

O que impressiona sobremaneira nos 14 contos aqui reunidos é a sua firme inscrição no presente. Ainda que movidos pelos propósitos mais díspares, todos os personagens agem segundo a sua natureza interior, como se dispusessem de uma vontade própria que dita o curso da própria história e, em última análise, do seu próprio destino.

No conto "O cão", um homem aceita, submisso, as imposições constantes da sua mulher invisual, que se compraz com a humilhação do esposo como forma de corrigir as imperfeições da sua vida; "Um casaco de raposa vermelha" introduz-nos na mente de uma discreta empregada de escritório cuja vida adquire um súbito sentido a partir do momento em que adquire uma nova peça de vestuário; "A ponte na Califórnia" debruça-se sobre as dores de crescimento de um miúdo que assiste, atónito, a uma tão inesperada quanto traumatizante manifestação de crueldade da mãe.

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Em torno de todas estas narrativas há sempre uma espécie de sombra a rodeá-las, reveladoras do caráter tantas vezes difuso da própria vida, que qualquer livro tenta em vão mimetizar..

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