Correspondências à prova do tempo

Correspondências à prova do tempo

O prestígio internacional de Miguel Torga fica bem evidente no livro que reúne uma parte da correspondência que manteve ao longo de praticamente toda a sua vida.

Durante mais de seis décadas, Miguel Torga correspondeu-se intensamente com centenas de intelectuais. Portugueses, na sua grande maioria, mas também espanhóis, franceses e brasileiros, entre outras nacionalidades. Figuras da estirpe de Teixeira de Pascoaes, Jorge Amado, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner, Cecília Meireles e até Fernando Pessoa, só para enumerar alguns exemplos.

Os ecos dessa correspondência podem ser encontrados no volume agora publicado pela D. Quixote, uma reunião parcelar dessas cartas cujo evidente interesse é beliscado por dois detalhes, não tão insignificantes quanto isso.
O primeiro está relacionado com o facto de o livro apenas incluir as cartas dirigidas a Torga, deixando de fora as réplicas ou intercessões iniciais do escritor transmontano. Como o próprio organizador Carlos Mendes de Sousa reconhece logo nas páginas iniciais, "a leitura da correspondência passiva ressente-se naturalmente" dessa ausência, pelo que propõe "a edição de um volume que no futuro reúna cartas do autor".

A segunda limitação prende-se com o caráter formal das cartas, que na sua maioria se resumem a agradecimentos pelo envio de edições do autor ou por meros pedidos de colaboração em revistas ou jornais. As poucas exceções vão para os poucos autores com os quais Miguel Torga construiu relações sólidas de amizade, como foram os casos de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade ou Eduardo Lourenço.

Nestas cartas encontramos afeto e cumplicidade por parte de quem via em Torga uma referência literária inescapável, mas também um exemplo de ética e rigor.
Por romperem a lógica dominante das comissuras e elogios mútuos em que a literatura portuguesa, de ontem como de hoje, é pródiga, há duas cartas que se destacam, até por colocarem o autor de "Contos da montanha" em lados diferentes da barricada. Na primeira, datada de 1930, lemos uma carta de Pessoa (através do seu Álvaro de Campos) em que agradece a Adolfo Rocha - como Torga ainda assinava - o envio do livro "Rampa", publicado nesse ano. O tom paternalista adotado por Pessoa enfureceu o então jovem poeta, que o instou a esclarecer o conteúdo da carta. Perplexo com a atitude, o autor de "Mensagem" redigiu uma resposta mas, por razões nunca explicadas, não chegou a enviá-la.

Quase 20 anos depois, um já aclamado Miguel Torga recebe uma missiva de uma jovem romancista chamada Agustina Bessa-Luís a pedir-lhe que interceda pelo seu livro "Mundo Fechado". Ante a sua recusa, Agustina escreve uma carta demolidora, na qual afirma perentoriamente, entre outros vitupérios, que "o que estraga os seus livros, senhor, é o desejo de simplicidade, de naturalidade". Abalado pelo que leu ou simplesmente sem vontade de responder-lhe, Torga ignorou a carta.

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