Crónicas sem tempo nem lugar marcado

Crónicas sem tempo nem lugar marcado

Os textos que Clarice Lispector escreveu para a imprensa brasileira da época reunidos em livro. "Correio para mulheres" é uma das apostas da Relógio D'Água para a reta final do ano.

A grandeza de um escritor é detetável até nos pequenos detalhes. Nos textos ditos secundários, por exemplo, pouco fadados para uma duração longa, é possível discernir as marcas entre um autor apenas competente e outro verdadeiramente singular.

Imortalizada por livros ainda hoje lidos como "A maçã no escuro", "Perto do coração selvagem" ou "Um sopro no escuro", Clarice Lispector foi também uma cronista de mérito. A sua paixão pelos jornais remontou, na verdade, à sua juventude. Em 1940, com apenas 20 anos, tornou-se repórter e redatora, tanto em agências noticiosas como em jornais. A experiência foi interrompida em 1944, ano em que Lispector se casou com um diplomata, iniciando uma etapa da vida que a manteve fora do Brasil durante uma década e meia.

O fim do casamento e a necessidade de assegurar a sobrevivência económica ditariam o regresso ao jornalismo, sob a forma de centenas de crónicas. Apesar do nome, são textos muito distintos entre si. Neles, tanto cabiam conselhos de beleza ou instruções culinárias para as mulheres do seu tempo como observações agudas sobre a existência.
Embora assinasse sob diferentes pseudónimos, como Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares, não se pense que se tratava de textos nos quais Clarice Lispector se abstinha de um investimento autoral.

O estilo facilmente reconhecível da escritora espreita amiúde nestes curtos textos, quase como avistamentos fugazes da beleza desarmante que encontramos em muitos dos seus livros. São "maliciosos detalhes" escondidos na maioria dos casos no meio das crónicas, mas suficientes para que nos apercebamos da magnífica verve da sua autora.

Sem qualquer organização cronológica nem temática, as crónicas reunidas em "Correio para mulheres" (a terceira compilação dos textos que escreveu para a imprensa) podem, pois, ser lidas ao sabor do acaso. Como aperitivos pequenos, mas não insignificantes, de que não nos cansamos até os termos lido uma e outra vez.

Além da curiosidade de vislumbrarmos o génio de Lispector espalhado pelas páginas, as crónicas possibilitam-nos ainda o desafio de olharmos para a mente feminina de outras eras e paragens, levando-nos a descobrir, não sem espanto, que as mudanças operadas foram menores do que as que poderíamos esperar.