Os dias de raiva vieram para ficar

Os dias de raiva vieram para ficar

Uma reflexão amarga sobre as fragilidades do nosso tempo marca o regresso de Bret Easton Ellis aos livros, nove anos depois de "Quartos imperiais". "Branco" é a estreia na não-ficção do popular autor de "Psicopata americano".

À conta de romances como "Psicopata americano", "Menos que zero" ou "As regras da atração", associamos ainda o autor norte-americano Bret Easton Ellis a um imaginário de "glamour" e superficialidade, ainda que não isento de atração por uma certa morbidez. E, todavia, mais de três décadas passadas sobre essas incursões iniciais, o autor de "Glamorama" é hoje, aos 55 anos, um homem muito diferente da estrela pop que foi durante uma década.

Como não tardamos a perceber na leitura de "Branco", o primeiro livro que publica desde 2010 e, simultaneamente, a sua estreia no ensaio.
Afinal, a euforia que transbordava dos seus primeiros livros deu hoje lugar a um desencanto evidente. O tom é pausado, mas talvez, por isso mesmo, mais eficaz, pelo modo como Easton Ellis procura manter a compostura enquanto vai explanando os argumentos que servem para comprovar o que pretende demonstrar neste conjunto de oito longos capítulos que integram o livro: vivemos tempos perigosos, em que as fricções, quase todas estéreis, estão por toda a parte. Uma simples declaração, por inócua que seja, corre o risco de provocar antagonismos. Cultivam-se ódios, "desamigam-se" estranhos, conhecidos e até familiares, pela incapacidade de lidarmos com a diferença de opiniões.

"Há dez anos, seria impensável a ideia de que uma opinião poderia constituir algo de errado. Mas agora, numa sociedade enraivecida e polarizada, as pessoas são bloqueadas devido a estas opiniões e deixam de ser seguidas online porque são consideradas de modo pouco rigoroso", explica. O escritor, cujos últimos anos foram passados a escrever para cinema e televisão, sabe bem do que fala, pois ele próprio sentiu a ira de diferentes setores da sociedade em tempos recentes.

O choque de gerações perpassa por quase todas as páginas do livro - de um lado, a Geração X, a que Bret Easton Ellis pertenceu, e do outro, os "millenials", que acusa de ser composta por indignados em permanência. E se a fúria não é em si mesma negativa, essa indignação manifesta-se só, segundo Ellis, através dos motivos errados.

É, pois, como um grito de revolta contra esses revoltados de pacotilha que podemos ler "Branco", um livro que, embora falhe por vezes o alvo, estimula o debate que urge fazer sobre a perda de liberdade em curso.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG