A autora que se recusa a tirar a máscara

A autora que se recusa a tirar a máscara

Crónicas de Elena Ferrante, reunidas no volume "A invenção ocasional", mantêm a aura de mistério em redor da escritora italiana

Na era do ruído, o silêncio, mais do que uma atitude passiva, pode ser uma arma eficaz. Até na literatura. Que o diga Elena Ferrante, a italiana cujo êxito não foi por certo indiferente ao mistério que rodeia a sua figura. Sobre ela arquitetaram-se os mais fantasiosos cenários, que podem não ter ajudado a decifrar o mistério mas ajudaram decerto a que engrossasse a a sua conta bancária.

Do escritor Domenico Starnone à tradutora Anita Raja, têm sido várias as figuras a quem é atribuída a paternidade do pseudónimo.
Depois da deflagração do êxito, que teve como apogeu "A amiga genial", o fenómeno parece ter entrado numa fase clara de retrocesso, o que explica a tentativa de aproveitamento máximo do filão enquanto ainda subsiste uma réstia de interesse em seu redor. É neste âmbito que podemos explicar a existência de "A invenção ocasional", um livro que reúne 51 crónicas escritas durante quase um ano para o "The Guardian".

O desafio do jornal britânico nem sequer era desinteressante, embora não propriamente original: a cada semana era-lhe dado um tema, sobre o qual Ferrante tinha que escrever um número pré-estabelecido de carateres.

O que podia parecer uma possibilidade ideal para se conhecer melhor a sua forma de ver e pensar revela-se uma tentativa falhada, pois em raros momentos Elena Ferrante deixa cair a máscara. Ficamos a saber (partindo do princípio, claro, de que está a dizer a verdade) que é uma fumadora inveterada e que teve gravidezes turbulentas, mas não muito mais.

O resultado dessa estratégia penaliza claramente o livro, que, isento da pulsão biográfica, se aproxima perigosamente de um amontoado de generalizações, quase tão desinteressante como um manual sobre a oxidação dos metais.

"Rio com gosto, sem me refrear, e tanto que me faz doer os músculos à volta da boca", escreve Ferrante na crónica em que é instada a escrever sobre o riso.

A afirmação - tão banal que podia ser assinada por dois terços da espécie humana - é apenas um dos quase infindáveis exemplos do tom manifestamente anódino que atravessa estes escritos.

Ocultar para sobreviver do ponto de vista autoral é, para Elena Ferrante, mais do que uma necessidade: é um imperativo.