"A Escola ainda não percebeu o que é a História"

"A Escola ainda não percebeu o que é a História"

O novo romance histórico de Isabel Stilwell é dedicado à vida de D. Manuel I, um rei que viveu entre mulheres. Ao JN, a romancista define o soberano como "um homem prático, para quem os fins justificavam os meios".

E ao nono romance histórico, Isabel Stilwell alarga o naipe de figuras reais biografadas a uma personagem masculina. Mas "D. Manuel I, Duas Irmãs para um Rei" não se limita a narrar a vida de um dos mais marcantes soberanos portugueses: é toda uma época fundamental da nossa História, a do apogeu dos Descobrimentos, que encontramos no livro.


Apesar de este ser o primeiro romance que escreve cujo protagonista é uma figura masculina, as personagens femininas (das irmãs Isabel e Maria, à mãe do rei ou à sua ama) são muito fortes. D. Manuel I não seria tão venturoso sem as mulheres que o acompanharam ao longe da vida?

Tenho a certeza de que não havia conjuntura astral que chegasse para alçar D. Manuel I ao trono, sem a força da mãe, D. Beatriz, duquesa de Viseu e Beja e da sua irmã, a rainha D. Leonor que se opôs com determinação a que a coroa fosse para o filho bastardo do marido, como o próprio tanto queria. As filhas da poderosa rainha de Castela, Isabel, a Católica - casou primeiro com Isabel e depois com Maria - herdaram a força da mãe. Acredito que D. Manuel, com estes exemplos, nunca subestimou a inteligência das mulheres.


Das figuras femininas que retrata do livro, quem a surpreendeu mais pela força do caráter?
A mãe de D. Manuel, matriarca da família Avis, é uma mulher extraordinária. Enviúva quando D. Manuel tem apenas um ano, e assume a defesa dos direitos dos filhos, os negócios da Casa de Viseu e Beja, e ainda se destaca como diplomata. É ela que negoceia com Isabel de Castela o Tratado de paz que põe fim à guerra entre os dois reinos, é ela que "gere" as Terçarias de Moura, assumindo o controlo da primogénita dos reis de Castela e Aragão e do príncipe herdeiro de Portugal, é ela que vai estar sempre nos bastidores dos grandes momentos do reinado do filho. Mas podia ficar aqui o dia todo a falar sobre as personagens femininas deste livro - uma ama, mãe solteira de dois filhos de um bispo - que têm, todas, uma história espantosa e uma força surpreendente. São capazes do melhor e do pior.

Que desafios adicionais lhe levantou o facto de ser um homem que está no centro da narrativa?
Gosto de "ver se sou capaz". A minha intenção era revelar o rei pelos olhos das suas duas primeiras mulheres, rainhas que praticamente desconhecemos, mas sabia que o grande desafio era tornar a "voz" de D. Manuel, a voz de um homem, o mais autêntica possível. Mas mal comecei a ler as crónicas de Rui de Pina, Garcia de Resende e Damião de Góis senti-me mais segura: são homens, e homens a dizerem-nos como é que o rei agia, como pensava, como se vestia, do que gostava. É evidente que a esta distância no tempo, este D. Manuel será sempre "o meu" D. Manuel, mas acredito que consegui dar-lhe a densidade psicológica que merece.

O papel de D. Manuel I é muitas vezes secundarizado por alguns historiadores, que entendem que ele se limitou a dar continuidade ao que já vinha de trás. Qual a sua opinião?

A minha opinião é que num país onde, invariavelmente, os nossos governantes não resistem a começar tudo da estaca zero, como se nada do que foi feito pelos outros contasse, mesmo que D. Manuel se tivesse limitado a dar continuidade ao projeto de D. João II, só por isso merecia todo o nosso aplauso. Ele é o primeiro a dizer que aprendeu muito com o cunhado e a sua "equipa", e que quer honrar os sonhos herdados dos seus antepassados, desde a descoberta do caminho marítimo para a índia à "descoberta" de Preste João, mas nada disso invalida que tivesse um projeto só seu - o desejo de vir a ser (pelo menos!) o grande imperador do Oriente. Plano que procurou concretizar até ao último suspiro, com uma capacidade de trabalho invejável.

A chegada ao trono de D. Manuel foi tudo menos esperada, já que não figurava nos lugares de topo quanto à sessão. Em que sentido isso alterou a sua forma de reinar?

Julgo que determinou a sua forma de reinar. Estou perfeitamente convencida de que quando chegou ao trono, aos 26 anos, D. Manuel acreditava piamente que era o Escolhido. Que a sua missão era derrotar o infiel, reconquistar Jerusalém, e unir o mundo sob uma mesma religião, conforme as profecias. Tudo, ou quase tudo o que faz, é em função desta certeza. Mas acredito que a sua infância e adolescência foi vivida, como hoje se diria, sob um enorme "stress" e com alguns "traumas" importantes - viu D. João II mandar matar o duque de Bragança e assassinar o seu irmão com as próprias mãos, colocando-o depois sob a sua estreita vigilância. Fiquei com a impressão de que explica muito daquilo que vem a ser, nomeadamente algumas das suas "falhas" de caráter - como a sua capacidade de dissimulação.

A determinação de D. Manuel I resvalava muitas vezes um lado mais perverso no seu reinado, como pedido de instalação da inquisição no país ou a expulsão dos judeus e hereges. Como explica essas ambivalências do seu caráter?

D. Manuel é um homem eminentemente prático, e para quem os fins justificam os meios. Além disso, viveu no tempo em que viveu. Mas quando falamos da expulsão dos judeus e dos mouros (esquecemos sempre que os mouros foram alvo do mesmo édito), damos a ideia de que foi obrigado a ceder - como se fosse uma fatalidade ­- porque senão a mulher dos seus sonhos, D. Isabel (filha dos reis Católicos) não se casaria com ele. Como se a culpa fosse dela. De tudo o que li, e li muito, concluí que a futura rainha de Portugal só exigiu a expulsão dos hereges (cristãos-novos acusados de heresia), que aqui estavam fugidos de Castela. A iniciativa de expulsar os judeus e os mouros é uma iniciativa de D. Manuel. Mas, ainda mais grave do que isso, do meu ponto de vista, é o batismo forçado que lhes impõe, não os deixando sair do reino. Naquele momento de apogeu das Descobertas, D. Manuel não podia dispensar nem gente, nem saber. E agiu.


Mesmo no auge da sua influência mundial, como aconteceu no reinado de D. Manuel I, Portugal já era um país desigual a muitos níveis. Que razões aponta para que essas situações se perpetuem até aos nossos dias?

Já no tempo de D. Manuel houve quem levantasse a voz contra o mau uso da riqueza que entrava no reino, e mostrasse preocupação com uma dependência excessiva do "dinheiro" vindo de fora, sem que se investisse na "produção nacional". Fomos assistindo ao longo da História a muitos outros momentos destes, mais recentemente com os fundos europeus e aparentemente repetimos sempre o mesmo erro de usufruir da riqueza enquanto dura, mas sem as mudanças estruturais que permitam acautelar o dia de amanhã.

Apesar de o seu percurso já ser indissociável dos romances históricos, a Isabel continua a definir-se sobretudo como jornalista. Em que sentido o faro jornalístico ainda lhe é essencial para o seu trabalho atual?

Ofereço o meu cérebro à neurociência, porque tenho a certezinha absoluta de que quarenta anos de jornalismo produzem alterações irreversíveis na massa encefálica. Na prática isto significa que não consigo ver o que ser passa à minha volta sem pensar "É preciso denunciar isto", "É urgente contar aquilo", ou "As pessoas têm de ficar a saber...", procurando ir mais fundo, resolvendo as contradições, procurando aproximar-me da verdade, com a consciência de que o "bom nome" é o valor mais precioso que alguém tem. Na prática, parece-me que mesmo quando escrevo um romance histórico sou, antes de mais, jornalista do passado.

Na última década, os livros sobre História de Portugal dirigidos a um público mais vasto cresceram a olhos vistos. Acha que os portugueses finalmente começaram a ter orgulho na sua História e respetivas figuras?

Parece-me que sempre tivemos orgulho na nossa História, embora o conhecimento do passado estivesse muito circunscrito às glórias dos Descobrimentos, a uma nostalgia do já fomos grandes e agora somos pequenos. Mas também não admira que as pessoas vivessem mais afastadas da História, e dos seus personagens, porque nos manuais escolares a História era, muitas vezes, oferecida como um conjunto de nomes, datas e tratados, perdendo-se o mais importante: o facto de serem pessoas como nós, que amam, sofrem, choram, invejam, intrigam, mas que também são capazes de atos extraordinários. Ao tirarem os "santos do altar", para ajudar a entender a sua humanidade, os autores dos bons livros de História, e dos bons romances históricos, tiveram de facto o mérito de aproximar as pessoas do seu passado. Levando-as a ler. E, quando se começa, nunca mais se quer parar.

Não esconde uma pontinha de vaidade por ter contribuído para essa aproximação?
Fico muito feliz de pensar que sim. Os leitores dizem-me muitas vezes "Eu não gostava de História, e agora adoro". E contam-me como depois de um livro foram visitar palácios e monumentos "com outro olhar", que foram ler mais a partir da bibliografia incluída no livro, e isso enche-me de felicidade. Porque sei, por experiência própria, como provoca adrenalina andar à procura das peças para formar este puzzle.

Tal como há quase 500 anos, há também uma pandemia à solta: não uma peste negra, mas um coronavírus. Pela reação coletiva a que assistimos, acha que são as mais as semelhanças ou as diferenças?

São muito mais as semelhanças, embora felizmente a medicina impeça as consequências de serem exatamente as mesmas. Não deixa de me entristecer como, apesar de toda a ciência à nossa disposição, continuamos a procurar teorias da conspiração e superstições para explicar estas pandemias. E de bodes expiatórios.
O meu livro estava pronto a chegar às livrarias em Abril, e foi adiado por causa de tudo isto, mas eu, no confinamento, só pensava: "Se as pessoas o pudessem ler percebiam que isto é igual!" A corte esteve décadas longe de Lisboa assolada pela peste, refugiando-se no Alentejo, procurando sempre sítios mais seguros. D. João II, por exemplo, mandou evacuar Évora durante umas semanas, para que depois as pessoas pudessem voltar em segurança. Os surtos de peste surgiam aqui e ali, e quem podia fugia à pressa para outra localidade. A distância social, os cuidados de higiene, a noção de contágio, tudo estava presente.

Está cada vez mais em voga uma releitura dos acontecimentos à luz da visão e dos valores do presente. Teme que a glória que ainda associamos aos Descobrimentos tenha os dias contados?

A História está constantemente a ser revista e reanalisada, até porque surgem novas fontes, e os historiadores têm cada vez mais "armas" (até químicas!) de fazer novas leituras dos factos, mais científicas, mas temo a insensatez de ler o passado à luz de ideologias. Da ignorância. Temo que os fanatismos e os populismos impeçam o conhecimento, e a falta de conhecimento leva a mais fanatismo e populismo. Sempre que vejo usar os mesmos métodos que alegadamente se repudiam, suspeito que se obterão os mesmos resultados. Livros queimados porque não eram politicamente corretos, gente condenada à fogueira por pensar de forma diferente, o pensamento livre rotulado de "heresia" - já vimos tudo isso. E não foi bom.

Acha que no atual quadro sombrio de perda de importância do ensino da História nos currículos escolares, os romances históricos podem ter uma importância acrescida, ao tornarem a história mais sedutora e aliciante para muita gente?

Vê Sérgio, eu não dizia que a própria escola ainda não percebeu o que é a História? Porque se a entendesse percebia que ela é Português, Matemática, Biologia, Estudo do Meio, abrange todo o conhecimento. Acredito num ensino transversal a todas as áreas e não tão segmentado como o nosso. Se esse ensino existisse, diria que haveria ainda mais leitores de romances históricos.

Ainda não perdeu a esperança de ver um romance histórico seu ser adaptado ao cinema ou televisão?
É verdade, não perdi. Estas histórias da nossa História são histórias extraordinárias, que nem o melhor dos argumentistas seria capaz de inventar. Merecem ser conhecidas.

Já saiu entretanto livros mais um livro histórico seu, desta vez dirigido para crianças, sobre D. Filipa de Lencastre. É preciso humanizar as figuras históricas para torná-las mais próximas?

Quando os leitores mais velhos me diziam, como contei, que tinham pena de só agora ter começado a gostar de História, comecei a pensar no tempo perdido. Porque não procurar semear a semente mais cedo? Ainda por cima quando as crianças (dos seis em diante) estão mais abertos às histórias, mais capazes de se teletransportarem no tempo, e com uma necessidade grande de saberem a onde pertencem, de conhecerem as suas raízes? E foi assim que surgiu a ideia de uma coleção de rainhas para crianças. O primeiro foi sobre D. Maria II, exatamente no ano em que celebrávamos os seus 200 anos, e tenho adorado ir às escolas e perceber o entusiasmo dos miúdos pela história desta nossa rainha, pelo livro. E agora foi a vez de Filipa de Lencastre, uma das nossas rainhas mais carismáticas, mãe de crianças (como os leitores) que foram responsáveis por feitos extraordinários. E não foi só o sempre falado infante D. Henrique, há também uma única filha (viva) que se torna uma das mulheres mais poderosas da Europa. No final de cada um destes livros há também uma cronologia rigorosa, que pode ajudar a contextualizar toda a história. E as ilustrações são fantásticas, as primeiras, da Violeta cor-de-rosa, as segundas da Raquel Russo, com um esforço grande de retratarem detalhes (a roupa, os ambientes) do tempo. Modéstia à parte, acho que são bons livros para os miúdos levarem para férias este ano.

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