A infinita curiosidade de um "pensageiro frequente"

A infinita curiosidade de um "pensageiro frequente"

Pela terceira vez, Mia Couto reúne num volume os seus textos de intervenção cívica. "O universo num grão de areia" chega às livrarias poucas semanas da saída de "O terrorista elegante", escrito a meias com o seu amigo José Eduardo Agualusa.


Há longos anos que Mia Couto mantém a prática de intercalar os seus romances com a publicação de livros que resultam de intervenções públicas.

Mais do que períodos de pousio criativo, de restabelecimento da energia para os próximos projetos literários, essas obras são uma espécie de "pensatempos", precisamente o título do seu primeiro livro do género, em 2005.

Se há autores para quem a intervenção cívica se cinge ao que escrevem nos seus livros, para Mia, pelo contrário, a cidadania é um exercício de vigilância permanente de que não abre mão com facilidade.

Esse envolvimento profundo nos mais variados tipos de causas não acontece por ser um escritor lido por milhares, mas porque o autor de "Terra sonâmbula" se vê, antes de tudo o resto, como um cidadão atento e movido a curiosidade.

A ausência de pretensa superioridade moral - defeito em que incorrem tantos escritores que querem assumir papel interventivo fora dos livros - é a principal virtude destas quatro dezenas de textos, separados, em alguns casos, por dez anos, e reunidos no volume "O universo num grão de areia".

Dos textos de natureza política e social, aos puramente literários, Mia Couto aplica, como "pensageiro frequente" que é, a mesma tentativa de reflexão crítica sobre o nosso tempo. Fá-lo com a convicção de que a escrita pode ser um instrumento privilegiado de aproximação ao outro, de combate a todas as formas de injustiça ou discriminação. Mas também com a suspeita de que o universo pode afinal caber num simples grão de areia.

Até por isso, soa acertada a decisão de inaugurar esta coletânea com as consequências devastadoras da passagem do furacão Idai na sua cidade natal, a Beira. Num relato muito pessoal, o ficcionista partilha os dias de incerteza que viveu quando, a muitos quilómetros de distância, sentiu que os seus estavam em perigo.

O lado mais intimista espreita também no discurso que leu, em 2011, nas Conferências do Estoril, quando exortou à necessidade de "murar o medo", impedindo que ele contamine tudo em redor. Ou também no não menos notável "Teatro e literatura: incompletas metamorfoses", escrito para o Festival de Teatro de Língua Portuguesa, no Rio de Janeiro, em que recorda o papel que a escrita, mistura de memória e ficção, teve para si quando esteve impedido de visitar a sua Beira durante 20 anos, devido aos efeitos da guerra civil.

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