A poesia como lugar do que já não existe

A poesia como lugar do que já não existe

"Instruções para atravessar o deserto" marca a estreia em Portugal de Juan Vicente Piqueras, cujos poemas evocam memórias distantes da sua infância.

A manifesta abundância (em qualidade e quantidade) da poesia portuguesa traz consigo um lado mais perverso: a menor atenção concedida a outras poéticas, mesmo que geograficamente próximas, como é o caso da espanhola.

Esse fechamento ajuda a explicar por que razão só agora Juan Vicente Piqueras, um dos poetas espanhóis mais lidos dos nossos dias, tenha sido publicado em Portugal. Com a chancela da Assírio & Alvim, "Instruções para atravessar o deserto" consiste numa recolha de seis dezenas de poemas extraídos das duas dezenas e meia de livros que já publicou desde 1985.

Em constante movimento - no âmbito das diferentes ocupações profissionais a que se tem dedicado já viveu em Roma, Atenas, Argel e Lisboa -, Piqueras evidencia, todavia, na sua escrita uma curiosa nostalgia das raízes. Nascido numa pequeníssima povoação rural pertencente a Valência, parece conservar ainda no seu íntimo as reminiscências de "uma aldeia sem água" e de "uma casa sem livros". Embora não tenha chegado ainda aos 60 anos, que completa no próximo ano, viu, como já confessou numa ocasião, "séculos passarem diante dos meus olhos e um mundo inteiro desaparecer".

Ainda muito presente nas décadas de 60 e 70, ou seja, durante a sua juventude, a ruralidade esvaziou-se até ao presente de uma forma quase trágica: não mais de 30 pessoas vivem hoje em Los Duques de Requena, a sua povoação natal. Talvez por isso, a sua poesia denote uma ânsia de pertença tão acentuada, rumando de lugar em lugar na secreta esperança de um dia encontrar a vida pulsante que a sua terra de origem chegou a ter.

O poema "Travessia noturna" contém uma das possíveis chave de decifração dos seus poemas. Nele, Piqueras admite que "sou o que parte em mim". mas também "o rumo que o barco semeia no sulco das ondas, a esteira que o segue e se extingue".

"Sucessão de humildes variações sobre o tema da Odisseia", como reconhece, a sua poesia abraça com vigor a realidade que a cerca. Quer assuma o corpo de "um caracol branco levemente colado a uma folhinha de erva à espera que a chuva me tire deste longo letargo" ou o de um suicida "que sabe a data da sua morte", a poesia de Juan Vicente Piqueras é sempre uma tentativa de chegar ao outro e de escapar ao seu cárcere interior.