A realidade é tudo quanto temos

A realidade é tudo quanto temos

"Uma Ida ao Motel" é o novo livro de Bruno Vieira Amaral. Uma estreia no género do conto que reclama continuidade.

A realidade é tudo quanto basta a Bruno Vieira Amaral (BVA) para alimentar a sua escrita. Uma evidência que surge ainda mais explícita no seu novo livro, um inspirado conjunto de contos em que o leitor se enleia facilmente, tal o modo hábil como o autor consegue que este se identifique com a realidade narrada, por muito distante que possa parecer do seu próprio quotidiano.

Quem leu os seus dois romances, "As Primeiras Coisas" e "Hoje Estarás Comigo no Paraíso", estará familiarizado com a capacidade do autor de "Manobras de Guerrilha, Pugilistas, Pokémons & Génios" transportar para as suas páginas ambientes e personagens a que a literatura portuguesa contemporânea poucas vezes deu a atenção devida: uma realidade suburbana em que a sobrevivência é a aspiração máxima de quem viu até os sonhos serem-lhes vedados.

O conto é, no entanto, todo um outro território. Uma peça de ourivesaria literária em que o fôlego indispensável ao romance é substituído pela importância da minúcia e do detalhe. Ora, estes predicados são precisamente as principais mais-valias que encontramos nas curtas narrativas que BVA escreveu ao longo de um ano para o semanário "Expresso".

Por estas quase quatro dezenas de histórias deambulam seres de carne e osso que reclamam inutilmente o seu quinhão de felicidade. Esposas negligenciadas por maridos que suspiram apenas por um elogio que lhes devolva alguma da auto-estima perdida; adolescentes a transbordar testosterona que encontram na fúria a única forma de conseguirem expressar toda a frustração que os corrói; homens cuja aparente realização profissional não é sequer capaz de amainar o desamparo e fragilidade que remontam à sua infância; viúvas carentes que, no afã de comunicarem com o ente falecido, acabam por ser vítimas de gente sem escrúpulo.

As diversas matizes do infortúnio e dos reveses são expostas por Vieira Amaral na medida certa, sem a tão frequente tentação lacrimejante ou a não menos recorrente superioridade moral.

Imperfeitas como quaisquer outras vistas de perto, as vidas sobre as quais BVA escreve transbordam de humanidade, mesmo quando praticam os atos mais vis. Sabem que nada lhes será dado livremente, mas recusam vacilar, mesmo que o espetro da derrota os acompanhe para onde quer que vão.

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