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"Agustina Bessa-Luís surpreende-me a cada instante"

"Agustina Bessa-Luís surpreende-me a cada instante"

É um testemunho, pessoal e intransmissível, sobre Agustina Bessa-Luís, escrito por quem a conheceu como quase ninguém: a sua única filha. O JN falou com Mónica Baldaque a propósito do seu livro "Sapatos de corda".

Nestas memórias soltas que rejeitam o rótulo de biografia, Mónica Baldaque esculpe, em traços breves mas precisos, o perfil da escritora que ajudou a revolucionar o romance português do século XX.

Fá-lo sem a pretensão da infalibilidade, porque, como diz, "aceder em pleno a Agustina será sempre uma tarefa complexa para quem se atreva", mesmo que reconheça estar "em vantagem" face aos demais candidatos "pela proximidade, pela atmosfera em que vivi, pela educação, que me preparou para a atenção, para o reconhecimento e para o julgamento".


Este é um livro de memórias que, pelas características de que se reviste, só podia ter sido escrito por uma filha?

Sim. Aqui, eu sou dona do tempo, da relação familiar, do material de prova, enfim, de tudo o que não seria apropriável por mais ninguém.


Em que sentido a escrita deste livro, que terminou perto do fim de 2019, foi importante no processo de assimilação do luto?

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O luto, senti que me invadia quando minha Mãe deixou de escrever, não com a morte. Terminou com "A ronda da noite", e da forma mais simbólica, o seu compromisso com o destino de escrever, embora continuasse serenamente presente. E isso é mais misterioso do que o fim.


A dimensão pessoal e íntima é muito evidente no livro. Até que ponto é que isto tornou o processo de escrita mais intenso do que qualquer outro livro que escreveu?

É natural que me envolvesse com outra convicção e autoridade num assunto meu e de família, que não ficciono, vou trazendo de um plano e doutro plano, num encadeamento poético (será?), simplesmente porque me dá um enorme prazer lembrá-lo e escrevê-lo, sem precisar de efabular.

Mesmo para uma filha, aceder em pleno a Agustina, à sua essência, era uma tarefa complexa, dada a sua profundidade?

Aceder em pleno a Agustina, será sempre uma tarefa complexa para quem se atreva. Se eu hoje estou em vantagem, essa vantagem é-me dada pela proximidade, pela atmosfera em que vivi, pela educação, que me preparou para a atenção, para o reconhecimento, e para o julgamento. Não sendo uma biografia este meu livro, é um testemunho. Por certo surgirão tentativas biográficas, a que até o afastamento irá trazer nova luz, e leituras. É sempre assim.

Como refere a dada altura, Agustina Bessa-Luís não foi (nem podia ter sido) uma Mãe como as outras. Quando apercebeu em toda a sua extensão que esta diferença também acarretava vantagens?

Nenhuma Mãe é como as outras! Mas minha Mãe foi menos "como as outras", porque ela mesma teve uma rara educação/preparação. Mas sobretudo, um dom, que marcou todo o seu comportamento na vida. O facto de ser Mãe, nunca a desobrigou de ser ela própria, nem a condescender com uma linguagem infantilizada e falseadora. Foi nesse ambiente que me criei, e formei. Vantagens? Como na "Alice do País das Maravilhas", em cada bolso do meu avental minha Mãe meteu-me um cogumelo; de um lado, bastava-me comer um bocadinho, e fazia-me crescer, crescer, quando a situação a enfrentar o exigia; se comia o cogumelo do outro lado, o meu tamanho diminuía, diminuía, permitindo-me passar por uma pequena porta, e entrar no mundo em que todos somos do mesmo tamanho.... E foi o bastante para me orientar sabiamente. Desde criança que aprendi a ser vigilante em relação a perigos, armadilhas, a defender-me sozinha, a detectar o inútil, a preservar a companhia do mágico e do espiritual.

A escrita de "Sapatos de corda" serviu também para desfazer ou corrigir eventuais estereótipos ou ideias infundadas acerca da sua Mãe?

Se serviu, é bom. Pelo menos abalou algumas ideias feitas, e corrige as erradas.

Escreve já no final que evitou procurar as memórias mais a fundo, porque nesse caso já seriam escavações. Crê que nem tudo o que vem das profundezas é necessariamente mais válido ou relevante?

Não. Creio que o que vem das profundezas é matéria incandescente, e não temos ainda equipamento para lá entrar em segurança!

Para um livro de memórias deste calibre, esperar-se-ia talvez que fosse mais longo. Por que razão privilegiou a brevidade?

As memórias não são necessariamente longas. Não é o que se relata, é o que fica. E o que fica, o importante, é sempre breve. Como um evangelho. É assim que eu defino este meu livro.

Afirmou, já depois da saída do livro, que descobriu novos elementos sobre a sua Mãe depois da morte. Quer destacar o que a surpreendeu mais?

É um vício que eu herdei, este de descobrir sempre mais alguma coisa que me surpreenda, nos vestígios ignorados, nos silêncios a destempo, a que um belo dia presto atenção! Minha Mãe surpreende-me a cada passo nas entrelinhas dos seus textos soltos, ou nas pequenas coisas que eu lembro.

Nas páginas deste livro encontramos uma Agustina Bessa-Luís muito diferente da que nos habituámos a associar à sua figura. Mais serena e contemplativa. A imagem pública que criou foi em larga medida uma encenação?
A vida é uma encenação. Minha Mãe disse-o por outras palavras quando escreveu: a vida não é importante, mas é inevitável. Essa encenação terá sido o inevitável, para além do qual está o secreto, a procura - a Obra que fica.

Estava previsto que a biografia escrita por Rui Ramos saísse em 2020, o que não aconteceu. Quais as razões desse atraso? Já há data de publicação e o que espera que essa biografia traga de distinto face à que foi publicada há dois anos por Isabel Rio Novo?

Tive dois anos de longuíssimas conversas com o Rui Ramos, sobre Agustina e a família, os amigos, as viagens, as leituras, os gostos, os acontecimentos, etc. e apercebi-me da sua preparação para entrar no mundo de Agustina, o que me deu uma grande tranquilidade relativamente ao nível moral e intelectual da biografia que está a escrever, para a qual necessita de uma paciente investigação e reflexão. Se leu o prefácio do Rui Ramos para "A muralha", já poderá ter uma ideia de como se irá orientar a biografia. E ela surgirá quando for o tempo.

É muito tocante a última página do livro, em que descreve a despedida que fez da sua mãe. Embora possa ter sido a parte mais difícil de escrever, terá sido também a mais libertadora?

Numa despedida para sempre, quebrou-se uma dependência de uma energia, que de certo modo sustentava a relação Mãe-Filha. Mas não há libertação de nada. Há um retomar da inspiração para viver. Agora, uma longe da outra.

As releituras mais recentes que tem feito da obra da sua Mãe, pelos mais variados motivos, alteraram de algum modo a visão anterior que tinha sobre esses livros, muitos deles lidos ainda na juventude?

Sempre que releio um livro de minha Mãe, entre os complexos jogos humanos que se desenrolam febrilmente, encontro nele "recados" que me são dirigidos, como se essa tarefa de educar continuasse, num novelo que se desfaz. Ao acaso, leio este: A solidão, nova miséria das sociedades do bem-estar. O jovem necessita de protecção contra a incultura. O adulto, contra a solidão. Mas à medida que as barreiras da ignorância se abatem, a solidão aumenta, e aparece o proletário culturólogo. Se eu tivesse de encontrar um cognome para Agustina, seria - A Educadora.


As reedições e as biografias são sem dúvida importantes para manter uma autora presente junto das novas gerações, mas, na parte que lhe compete, enquanto guardiã da sua obra, de que outras tentará continuar a assegurar que Agustina continue a ser lida?

Há todo um trabalho dedicado, criativo e entusiasta, profissional, que vem sendo desenvolvido pelo Editor, pela minha filha Lourença, e por mim, no sentido de divulgar o pensamento e a obra de Agustina. O Círculo Literário Agustina Bessa-Luís mantém esse mesmo propósito e empenhamento.
A par das reedições e edições de inéditos, outras formas de leitura de Agustina têm vindo a ser trabalhadas, nomeadamente na adaptação ao cinema de três obras - um filme já em montagem, e as outras duas em fase de escrita de guião; a edição de uma rubrica de podcasts, em colaboração com a Reitoria da Universidade do Porto, será muito brevemente colocada on-line; foi elaborada a primeira Rota Literária, Geografia Agustiniana - a partir de 19 romances de Agustina, que já se encontra on-line; vão começar a ser preparadas uma série de Leituras Encenadas, subsidiadas pela Câmara do Porto.
Acredito numa nova geração, não sei se será a próxima, ou outra ainda, capaz de ler Agustina, sobretudo de assimilar o seu papel de sibila. É tão extraordinário tudo o que escreveu que o mínimo que lhe é devido é lê-la.

Em que alturas concretas do dia-a-dia ainda se lembra da sua Mãe? Ou seja, quando dá por si a comentar que gostaria que ela pudesse cá estar para presenciar determinada situação?

Bom, tanta gente me diz: "se cá estivesse, o que diria Agustina do que se passa nisto ou naquilo?"
Pois eu acho que já o disse, já disse tudo!

O grosso do livro centra-se nos anos de infância e juventude, sendo muito escassas e breves as referências a episódios ocorridos no último par de décadas. Há algum motivo especial para essa opção?

Se foi uma opção, foi no inconsciente. Há sempre alguma coisa a acrescentar, mas já será demasiado.
A vida tomou a partir de certa altura um sentido diferente. Com a morte de minha Avó Laura, Mãe de minha Mãe, perderam-se hábitos, aos poucos modificaram-se as rotinas. Sinais de outros tempos a vir.
Depois, mais tarde, com o estado de saúde de minha Mãe, e foi estranho, uma espécie de silêncio surpreendente, de início, tornando-se inquieto, instalou-se. Os médicos sucediam-se, acumulavam-se os diagnósticos, mas sempre a incredulidade de minha Mãe vencia qualquer razão. Entretanto, os amigos foram envelhecendo, morrendo, e as companhias eram cada vez mais e só, as leituras e a escrita. Meu Pai dedicou-se totalmente a fazer companhia a minha Mãe. De mãos dadas sobre a mesa, minha Mãe descansava enquanto ele se debruçava sobre os textos a rever, a trabalhar, pensando em novas edições.
Passeavam no seu jardim secreto do Gólgota, e era comovente. Encontravam os dois um novo equilíbrio que os unia à Vida. Fechava-se um ciclo.

O muito que ainda terá ficado por escrever sobre as suas memórias e a sua Mãe leva-a a acreditar que esta não foi a sua derradeira incursão autobiográfica?

Não penso vir a escrever sobre esses doze anos, que não foram de espaços em branco na vida de nenhum de nós, mas foi um tempo dimensionado para além do imaginável como experiência. Como se tudo se tivesse varrido à nossa volta, e ficasse um Nada com uma voz de Sibila a dominar. E esse tempo terá de permanecer assim, inviolável. O que é certo, e uma vez mais, é que ninguém de fora, poderá escrever esse livro. Entrava a geração de meus filhos, e isso eram outras ocupações e descobertas. E assim se continua.

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