Amar quem faz do amor uma lição de vida

Amar quem faz do amor uma lição de vida

Valter Hugo Mãe regressa ao território da infância com livro que realça o papel das gerações mais velhas na educação dos jovens.

"Um dia, entendi que os velhos são heróis. Passaram por muito, ganharam e perderam tanta coisa. Perderam pessoas. Persistem sobretudo para cuidar de nós, os mais novos, e nos assistirem. Observam-nos. São heróis. Ainda sabem amar depois de tantas dificuldades".


A passagem anterior pertence ao novo livro de Valter Hugo Mãe, "Serei Sempre o teu Abrigo", e parece adquirir uma força e simbolismo especiais à luz dos trágicos acontecimentos recentes, marcados pela mortandade causada por uma pandemia que é particularmente severa com os mais velhos.


É com as emoções sempre muito próximas de si que o escritor (e também autor das ilustrações incluídas no livro) conta a história de um miúdo que assiste com particular preocupação à fragilidade do estado de saúde dos seus avós.


Ambos são uma improbabilidade matemática: ainda que cada qual à sua maneira, são, na verdade, um só. Se a avó era uma máquina de afetos, repreendendo o neto quando o abraço que este lhe dá era demasiado fugidio para o seu gosto; o avô, por sua vez, desdobrava-se em tarefas sem fim porque concebia a vida como uma jornada laboral exigente.


Menos dado a exuberâncias afetivas, o avô não era imune a elas, todavia. Apenas as exibia de maneira diferente. Como através dos pratos culinários, afinal a sua maneira de escrever poesia, "aquilo que encontrara para traduzir delicadeza e carinho por todos nós".


Quando a avó enfrentou um problema cardíaco, toda a harmonia familiar ficou em suspenso, como se, temendo o pior, o pudesse espantar do Mundo. Mas, apesar de ter "trocado o coração por um eletrodoméstico, continuou amando".

Acima de tudo, porque "fazia já do amor uma coisa plenamente racional. Amava por lucidez. Ela dizia: amar é saber. E dizia: amar é melhorar". Tão empenhada estava em aperfeiçoar-se como ser, que não era apenas a família o recetáculo dos seus afetos. Com a natureza, mantinha também uma proximidade tal que havia mesmo quem dissesse que, "quando a família mudou, até as árvores aprenderam a caminhar".


Já com o novo coração mecânico a pulsar dentro de si, com o marido sempre atento para que a recuperação não falhasse, a avó retomou as rotinas de sempre. A cuidar da casa, mas também dos seus amores de sempre, bem abrigados no seu coração de esposa, mãe e avó.

Outras Notícias