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Cinco escritores elegem os cinco livros do ano

Cinco escritores elegem os cinco livros do ano

Desafiámos o Afonso Cruz, o José Emílio-Nelson, a Patrícia Portela, o Rui Manuel Amaral e a Susana Piedade a escolherem os cinco livros que os ajudaram a tornar o ano de 2020 um pouco mais suportável. O resultado é uma exploração aliciante de caminhos e possibilidades que sugerem alternativas a um mundo em estado pandémico.

Num planeta que assumiu feições distópicas como há muito não o víamos, "1984" não podia faltar na lista de 25 obras recomendadas. A realidade dura também espreita em livros como "Apneia", abordagem tão dura como lúcida do drama que é a violência dramática, ou "Margarida espantada", mergulho profundo no equilíbrio instável do território da saúde mental. Mas nem só de tons sombrios ou agrestes se fez a escolha. O sonho ou a utopia perseguem livros marcantes, como "Na presença da ausência", "As velas ardem até ao fim" ou "Saga press":

Afonso Cruz

"Poesia e criação", Roberto Juarroz (Edições Sr. Teste)
"Jardim de outono", Dulce M. Loynaz (Flâneur)
"1984", George Orwell/Fido Nesti (Alfaguara Portugal)
"Porquê olhar os animais? ,John Berger (Antígona)
"Na presença da ausência", Mahmoud Darwich (Flâneur)


Quando perguntaram a Juarroz se a atividade de poeta é um destino, ele respondeu que sim. Mais, é uma necessidade.
("Jardim de outono", de Dulce María Loynaz). "Em cada grão de areia há um desabamento da montanha", disse a autora, e , por mais subtil, cada gesto.
("1984", de John Orwell). Para quem nunca leu "1984", tem agora a hipótese gráfica. Não há desculpas.
("Porquê olhar os animais?", de John Berger). É um museu da extinção. Imprescindível.
Tal como o livro de Darwich, "Na presença da ausência", onde a imaginação cai das árvores.

José Emílio-Nelson

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"O cânone", António M.Feijó; João R. Figueiredo; Miguel Tamen (Tinta da China)
"O sátiro surdo - poesia e prosa de Rubén Darío", organização e tradução de João Albuquerque. (Labirinto)
"João Cabral de Melo Neto na poesia portuguesa, Arnaldo Saraiva, (Livraria Académica)
"Navalha no olho", João Paulo Cotrim [Nova Mymosa]
"Torpor", Luís Adriano Carlos (Porto Editora)

Uma escolha faz-se tendo em conta somente o que se leu e falha pelo que se desconhece (para além da avaliação pessoal). São estes os limites que obrigam a omitir involuntariamente livros que, por certo, mereceriam destaque e abrilhantariam uma selecção mais consensual.
Calhou-me conhecer e por isso escolhi (por ordem alfabética acima enumerada): o desconcertante ensaísmo questionador de ideias anquilosadas sobre a literatura portuguesa; uma tradução sem trair Rubén Darío; o sétimo caderno ensaístico, continuando uma coleção que fascina pelo que elucida e informa dos autores contemplados; o engenho de um verso em que o obsceno é compreendido e exaltado de avesso; a construção poética disciplinarmente calculada que interrompe uma ausência (de há 14 anos) dos escaparates.


Patrícia Portela

"A invenção de Morel", Adolfo Bioy Casares (Antígona)
"Woman at point zero", Nawal El Saadawi (Bloomsbury)
Saga press", Grabato Dias (edição de autor)
"O túnel", Russell Edson (Assírio & Alvim)
"Acidentes", Hélia Correia (Relógio D'Água)

Os 5 livros de qualquer ano

Para um ano que será certamente "um dos das nossas vidas", só podemos pedir a companhia de autores excecionais.
"A invenção de Morel", de Bioy Casares, para nunca nos esquecermos de que nada é o que parece e o que parece nem sempre é.
"Woman at point zero", de Nawal El Saadawi, porque há prisões muito reais e muita injustiça ainda a combater; viver com restrições em nome da saúde de um planeta não é uma delas, resta saber como o fazer da melhor maneira.
"Saga press", de Grabato Dias, porque não há amor como o primeiro.
"O túnel", de Russell Edson, ninguém melhor para nos explicar com graça, artimanha e tragédia de que trata este desconforto de que todos somos feitos.
"Acidentes" de Hélia Correia, saiu este ano e é um assombro.

Rui Manuel Amaral


"Bakakai", Witold Gombrowicz, tradução de Rui Almeida Paiva (Dois Dias Edições)
"O meu suicídio". Henri Roorda,tradução de Rui Caeiro (Snob)
"O balcão".,Jean Genet, tradução de Regina Guimarães (Húmus)
"Sonhos", Walter Benjami, tradução José Aigner (Sr. Teste)
"Outono alemão", Stig Dagerman, tradução de Júlio Henriques (Antígona)

"Bakakai", Witold Gombrowicz

A edição de clássicos em Portugal está cheia de espaços em branco. Um dos mais inexplicáveis é este magnífico Bakakai, que permaneceu inédito em português até agora. O próprio Ferdydurke, a obra-prima de Gombrowicz, só foi publicado entre nós em 2011, pela 7 Nós, com tradução de Júlio do Carmo Gomes e Maja Marek. Esta edição de Bakakai, com tradução de Rui Almeida Paiva, é um dos grandes acontecimentos literários de 2020. Demorou quase 100 anos, mas foi.

"O meu suicídio". Henri Roorda

Um livro raro e difícil de classificar. À falta de melhores palavras, limito-me a dizer o óbvio: trata-se do balanço final de um homem que ama a vida e que decide pôr-lhe um termo. Sem uma sombra de rancor ou dúvida. Apenas uma agudíssima, serena e desconcertante lucidez. Henri Roorda suicidou-se a 7 de Novembro de 1925. Tradução revista de Rui Caeiro de um livro editado originalmente pela &etc, em 1993.

"O balcão", Jean Genet
Um grande texto pede um grande tradutor. Se Genet tivesse escrito "O balcão" em português, teria certamente usado as mesmas palavras de Regina Guimarães. Tentar reconhecer as soluções da tradutora é um exercício que confere um prazer suplementar à leitura deste magnífico texto para teatro. Um livro que vale por dois.

"Sonhos", Walter Benjamin
Ler Walter Benjamin é mergulhar num mistério. À superfície, a escrita parece simples e clara. No entanto, sob a crosta fina do texto, há profundezas inimagináveis, labirintos secretos, correntes subterrâneas. O que não consigo reconhecer à primeira é exactamente o que mais me entusiasma em Walter Benjamin. É preciso escavar, uma e outra vez. Mais um volume da bela colecção do Sr. Teste.

"Outono alemão", Stig Dagerman
Lemos "Outono alemão" e ocorrem-nos de imediato, como num espelho, as imagens terríveis do filme Alemanha, Ano Zero, de Rosselini. Testemunhos diretos da miséria, da fome, do desespero vivido ou infligido à maioria dos sobreviventes alemães da Segunda Guerra. Dagerman viaja por uma Alemanha em ruínas, em 1947, na qualidade de repórter e em serviço para um jornal sueco. Grande jornalismo ou grande literatura? As duas coisas.


Susana Piedade


"As velas ardem até ao fim", Sándor Márai (D. Quixote)
"Margarida espantada", Rodrigo Guedes de Carvalho (D. Quixote)
"Manual de sobrevivência de um escritor ou o pouco que sei sobre aquilo que faço", João Tordo (Companhia das Letras)
"Aprender a falar com as plantas", Marta Orriols (D. Quixote)
"Apneia", Tânia Ganho" (Casa das Letras)

"As velas ardem até ao fim", Sándor Márai
Este livro já estava na minha lista há algum tempo e ainda bem que não o adiei mais. É uma história profunda e intemporal sobre amizade, paixão, lealdade e os labirintos da natureza humana. Depois de cortarem laços por mais de quatro décadas, dois amigos reúnem-se nos confins da vida para revisitarem o passado e os segredos que os afastaram. E neste reencontro catártico, há sempre uma tensão subtil que mantém o desfecho suspenso.

"Margarida espantada", Rodrigo Guedes de Carvalho
A escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho nunca me desilude e "Margarida espantada" foi mais uma excelente leitura, em que se entrelaçam nuances das duas últimas obras do autor. É um romance que nos agarra pelas palavras e nos conduz, sem meias-medidas, à complexidade das relações familiares; à violência e ao amor; ao que nos une e nos separa; aos meandros da saúde mental. Acompanhamos as personagens e o desenrolar da trama, emaranhados em dúvidas e ilações, com tanta vontade como pena de chegar à última página.

"Manual de sobrevivência de um escritor ou o pouco que sei sobre aquilo que faço", João Tordo
A citação inicial conquistou-me: "Afinal, as únicas coisas que valem a pena fazer-se são aquelas que te podem partir o coração" (Colum McCann). Neste manual, que mais parece uma conversa intimista com o leitor, o autor fala-nos despudoradamente das alegrias e das angústias do ofício da escrita, mas também do seu valor, do ponto de encontro em que se torna. No fundo, tudo é possível quando acreditamos e nos entregamos ao que nos apaixona. Ainda que nos parta o coração.

"Aprender a falar com as plantas", Marta Orriols
Gostei da narrativa íntima, temperada de reflexões e ambiguidades emocionais, e da forma como a autora aborda as imprevisibilidades do quotidiano, o abandono e a perda. Neste romance, uma neonatalogista dedicada a salvar vidas vê-se subitamente confrontada com a morte do companheiro, momentos depois de ele a deixar. Uma ironia amarga que a coloca entre a dor e o ressentimento, numa espécie de perda redobrada. E o luto não tem fórmulas, cada um faz o que pode para se reencontrar.

"Apneia", Tânia Ganho"
Um drama atual que nos deve tocar a todos. Quando uma mulher sai de casa com o filho de cinco anos para fugir às garras de um marido violento, obsessivo e manipulador, e a justiça falha em proteger as vítimas durante anos a fio, tudo pode acontecer. Vemo-lo nas notícias: mulheres que padecem às mãos dos maridos ou companheiros até à morte; crianças vítimas de abusos, desgaste psicológico e alienação parental; traumas que não se apagam, que não se devem silenciar. Porque as suas histórias não são ficção.

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