Com os pés bem assentes na infância

Com os pés bem assentes na infância

"Paz traz paz" reúne dezenas de histórias escritas e ilustradas por Afonso Cruz. Um livro que, embora pareça feito para os mais novos, se destina a todos.

Não andava longe da verdade quem disse que um escritor capaz de escrever para crianças é capaz de escrever para toda a gente (o inverso, como sabemos, já não é bem assim). Mais do que uma técnica que se aprende com maior ou menor à-vontade, a capacidade de conseguir entrelaçar diferentes públicos com a sua escrita é um autêntico dom cuja existência nunca é demais realçar.

Entre nós, Afonso Cruz é um dos autores que melhor compreende (e coloca em prática) a ausência de compartimentação entre estes dois mundos, o da criança e o dos adultos, que afinal são apenas um. Afinal, os longos braços da infância e do seu rico imaginário atravessam todas as fases da nossa vida, por muito que nos queiramos afastar dessa evidência.

No registo livre (aliás imensamente livre) que cultiva com grande eficácia, "Paz traz paz" é o mais recente exemplo de uma bibliografia numerosa que já nos ofereceu outros títulos sugestivos como "Vamos comprar um poeta", "Como cozinhar uma criança" e "A contradição humana", provando que ter os pés bem assentes na infância é uma forma não só eficaz como inteligente de conseguir ver mais e melhor o Mundo.

Aparentemente direcionado para os leitores mais novos, este é, na verdade, um livro com um apelo transgeracional.

Num tom tão inocente quanto desarmante, a jovem narradora do livro vai partilhando as suas pequenas inquietações e perplexidades. Quase todas relacionadas com o modo de organização de uma sociedade que insiste em confundir felicidade ou progresso com índices de desenvolvimento mais ou menos bizarros.

As suas meditações breves são pequenos nacos de sabedoria. Procuram desafiar a lógica de associarmos a virtude à prudência, tantas vezes um simples eufemismo de algo bem mais pernicioso. "Aos cães damos ossos, aos monstros damos medo. Crescem muito bem assim", escreve o autor em "A ração dos monstros".

Já na narrativa "Instituto das Pessoas Normais", lança-se o alerta contra os vampiros e os zombies. Seres que "nos sugam os pensamentos, as ideias e nos obrigam a usar ideias velhas, com buracos no calcanhar". O antídoto para escapar a esse vírus é prescrito pela pequena narradora: internar as pessoas e ensiná-las a brincar. "E, em casos extremos, a desobedecer (como fazem os gatos, como faz o futuro)"