Como fixar em papel o tempo que corre

Como fixar em papel o tempo que corre

As crónicas de Lídia Jorge escritas para a rubrica radiofónica homónima foram reunidas num livro publicado pela D. Quixote cuja leitura é altamente recomendada.

Ao não envolverem personagens, ações ou enigmas, "nem enlace nem desenlace, nem história nem ciência", as crónicas poderiam bem ser uma espécie de terra de ninguém.

Um território tão vasto quanto árido, em que a pretensa liberdade poderia na verdade significar apenas uma ausência de pertença. E, todavia, a avaliar pelo reduzido número de autores que se saem a contento da respetiva incursão por estes terrenos bravios, "há mais coisas entre o céu e a terra que pode imaginar" uma frágil conceção de crónica.

Se todos sabemos que elas têm uma relação próxima com o tempo, devendo-lhe até o próprio nome, o modo como o mesmo é fixado no papel, esse, já depende sobretudo da arte do cronista.

É essa capacidade que Lídia Jorge no-lo demonstra num conjunto de crónicas originalmente lidas em rádio (para um programa transmitido na Antena 2 ao longo do ano passado). Embora defenda, logo nas linhas iniciais do livro, que "a crónica não constitui um género", mas "apenas uma espécie de homenagem ao deus que faz escorregar os grãos de areia, mirando-nos de soslaio", a verdade é que a autora de "Os Memoráveis" consegue elevá-la a essa categoria. Por força da sensibilidade apurada, mas também pela inquietação que transparece destes escritos. Ancorados no presente, eles não descartam as interrogações sobre o futuro, quer se debrucem sobre as alterações climáticas, os direitos das mulheres ou a violência na sociedade.

Os chamados grandes temas são abordados sem a pretensão da infalibilidade com que costumamos ler e ouvir os que têm solução para tudo mas que, por qualquer motivo insondável, jamais conseguem colocar em prática o que peroram. Com o mesmo à-vontade com que recorda personagens da infância, Lídia Jorge discorre sobre o poder da arte de nos devolver um humanismo que tantas vezes é negado pelo suposto bem comum.

Fortemente representadas estão também as crónicas em que a romancista recorda o convívio com os seus pares, seja Agustina Bessa-Luís ou José Saramago, enfatizando traços do seu caráter que nem sempre se revelavam nítidos aos olhos dos leitores.

De índole diversa, os textos convergem num ponto muito preciso: a importância dos afetos como veículos fundamentais para a Humanidade escapar aos seus confinamentos.

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