Contar a História sem a pretensão do rigor

Contar a História sem a pretensão do rigor

"Momentos estelares da Humanidade", uma das mais notáveis obras de Stefan Zweig tem uma nova edição portuguesa. Uma oportunidade mais para descobrirmos outros detalhes sobre vidas tão plenas como as de Dostoiévski, Händel, Tolstói ou Napoleão.

O tempo não soterrou, como os mais desdenhosos previam, os livros de Stefan Zweig, o escritor austríaco (nacionalizado britânico) que procurou em vão alertar a Humanidade para a barbárie do Holocausto.

Da sua extensa obra, nem todos os títulos resistiram ao impacto dos anos, mas a profundidade psicológica da sua escrita, avessa a doutrinarices inócuas, fez com que livros como "O mundo de ontem" ou "Novela de xadrez" fossem ainda hoje lidos com manifesto deleite pelos leitores que não se contentam apenas com fórmulas gastas de entretenimento.

É porventura nas biografias que encontramos o melhor de Zweig. Nos livros dedicados a figuras grandiosas como Montaigne, Maria Antonieta ou Fernão de Magalhães, o autor falecido no Brasil não se limitou a revisitar os mitos conhecidos, optando antes por concentrar os seus esforços na tentativa de aceder à psique de cada um dos biografados.

Escrito espaçadamente ao longo de mais de duas décadas, no intervalo de obras que exigiam uma atenção mais constante, "Momentos estelares da Humanidade" oferece-nos 14 minibiografias, ou "miniaturas", como o autor lhes chama.

São narrativas que se centram em episódios muito díspares entre si, mas com um mesmo fio condutor: "cada um desses momentos marcou um rumo durante décadas e séculos". Quer tenham sido protagonizados por génios ou homens comuns a quem foi concedida por instantes o dom da imortalidade, esses acontecimentos mudaram o curso da História.

Do achamento do Oceano Pacífico, a cargo de um aventureiro pouco recomendável chamado Núñez de Balboa, à conquista de Bizâncio pelas forças de Maomé, Stefan Zweig esmiuça cada um destes factos com o entusiasmo do romancista que vê a realidade a acontecer diante de si.

Pela minúcia exaustiva dos pormenores, dir-se-á que estes relatos pouco devem ao rigor histórico. Uma suspeita confirmada pelo próprio autor, que confessa nunca ter querido descobrir ou intensificar a verdade dos acontecimentos. A sua busca interior foi além dessa noção redutora de verdade ou mentira. Mais do que a suposta fidedignidade, Zweig procurou fazer de cada aproximação biográfica a figuras como Cícero, Dostoiévski, Händel ou Napoleão Bonaparte uma forma de os compreendermos para lá dos respetivos legados.