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D. Quixote trocou a lança pelo comando televisivo

D. Quixote trocou a lança pelo comando televisivo

Salman Rushdie adapta aos nossos dias a genial criação de Miguel de Cervantes, inserindo-a na América do consulado de Donald Trump. "Quichotte" é candidato a um dos romances do ano.

Bastaria a ousadia revelada por Salman Rushdie de querer transpor para os nossos dias a imortal criação de Cervantes para que obtivesse a nossa imediata simpatia (quantos mais se sujeitariam ao escrutínio e à comparação com aquela que será a obra literária mais incontornável de todos os tempos?).

Mas o polémico romancista de origem indiana fez mais, bem mais, do que seguir a fórmula da obra inicial, ao propor uma espécie de reescrita que lhe acrescenta novos planos e, antes de tudo o resto, a coloca em diálogo com o nosso tempo. E que melhor tributo se pode fazer a um clássico do que pô-lo em confronto com os desafios e especificidades de uma época substancialmente diferente daquela onde foi concebido?

A América (sobretudo a América de Trump) é o alvo maior deste romance excessivo, non-sense e alucinado - e não menos desequilibrado, é certo - para o qual Rushdie convocou todo o seu engenho narrativo.
O resultado é um dos seus romances mais estimulantes, permitindo-lhe um encerramento em modo triunfal de uma trilogia ancorada no presente, composta por "Dois anos, oito meses e vinte e oito noites" (2015) e "A casa Golden" (2017).

Mas vamos aos factos: "Quichotte" surge-nos neste romance como uma criação de Sam DuChamp, obscuro autor de livros de segunda categoria. Se a quixotesca personagem original enlouquece devido à leitura contínua de romances de cavalaria, o anti-herói deste tempo consome doses larvares de "televisão acéfala", o que o faz sofrer "uma estranha forma de lesão cerebral".

Os danos não tardam a manifestar-se. Apaixona-se subitamente por uma celebridade vácua (Salma R.) e convence-se de que é correspondido, predispondo-se a atravessar os Estados Unidos de lés a lés para selar essa união. Mas não vai só. Na sua companhia segue Sancho, imaginário filho adolescente que é forçado a tolerar (e ser cúmplice até) das diatribes infundadas da figura paterna.

O exemplar equestre da obra original é agora um não menos fumegante velho Chevy, testemunha silenciosa (ou quase) das jornadas pela América profunda, durante as quais se vão acumulando exemplos caricaturais de como, para um número crescente de pessoas, "a fronteira entre a verdade e a mentira se foi esfumando e tornando indistinta".

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Uma caricatura, afinal, pouco caricatural.

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