De regresso ao lugar onde tudo começou

De regresso ao lugar onde tudo começou

Dois títulos pertencentes à primeira fase da obra de Gonçalo M. Tavares, "O livro da dança" e "Histórias falsas", foram reeditados pela Relógio D'Água. Duas releituras que se impõem pela qualidade.

Dezoito anos e mais de 40 títulos depois, é tempo de regressarmos ao lugar de partida: a "O livro da dança", a obra com que, em 2001, Gonçalo M. Tavares (GMT) se estreou na publicação, inaugurando um percurso literário de fulgor dificilmente catalogável, tal a riqueza, variedade e assertividade.

Mais do que um livro de poesia, este é um livro sobre a poética do movimento, uma investigação, entre o ensaio e a ficção, sobre o corpo que acaba por adquirir ela própria, por força da sua densidade, uma dimensão corpórea.

Através de mais de uma centena de fragmentos (ou poemas), GMT cartografa conceitos, técnicas, dilemas, possibilidades. Interrogações, em suma. Fá-lo através de uma escrita que recusa a retórica do belo e elege o exato, o científico que quer aceder à alma, com um bisturi no lugar da caneta.

"Dominar a natureza mas dominar primeiro o instinto de dominar a natureza/dominar a Natureza mas dominar depois o instinto de dominar a Natureza/Não dominar a natureza", escreve o poeta-filosofo no breve texto "Recomendações", súmula de uma escrita que se alimenta habilmente da trilogia corpo-dança-movimento para assegurar uma mais ampla reflexão sobre o seu objeto de estudo.

Mais recente foi a reedição de "Histórias falsas". Inicialmente publicada pela Campo das Letras em 2005, estas nove curtas narrativas representam variações do conceito de sabedoria segundo os clássicos.

GMT traz-nos personagens históricas concretas (na sua maioria, próximas de figuras maiores, como Empédocles, Lao Tsé ou Marco Aurélio) e opera impercetíveis desvios na realidade com o fito de nos fazer refletir sobre a amizade, a honra, a coragem, a traição ou a insídia.

Mais interessante ainda do que verificarmos onde termina a História e começa a estória. é assistirmos, ora com fascínio ora com repugnância, que a intemporalidade dos atos e dos comportamentos é uma das características mais solidamente impregnadas no espírito dos homens.