Duelos fratricidas de pena em riste

Duelos fratricidas de pena em riste

A célebre carta que Eça de Queirós escreveu (mas nunca chegou a enviar) a Camilo Castelo Branco é o mote do mais recente livro gizado pelo editor José da Cruz Santos. Um projeto imenso que convoca outras figuras de relevo: Vasco Graça Moura e João Abel Manta.

O génio foi o único elo comum entre Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. A vintena de anos que os separava precipitou essa distância, filiando-os em movimentos opostos em quase tudo.

Os próprios traços do caráter fazem supor que, mesmo se tivessem convivido, o mais provável seria que tivessem colidido. Apesar de ser bem evidente o respeito mútuo, reforçado até por ligações familiares: ou não tivesse sido o próprio pai de Eça, Teixeira de Queirós, que julgou e absolveu Camilo e Ana Plácido.

Essa ligação afetiva terá sido uma das razões pelas quais Eça se absteve sempre de criticar o colega. Mas no auge da "Questão Coimbrã", que opunha os defensores do Realismo aos do Romantismo, Camilo não se conteve e acusou os escritores da Geração de 70 de "se implicarem sempre" consigo.

Numa carta que jamais chegou a enviar, e divulgada a título póstumo, Eça responde ao rival. Monumento de verve e elegância narrativa, polvilhada por elogios ao rival, a missiva contém também remoques, com o remetente a insinuar que o seu destinatário estava rodeado de falsos amigos.

Camiliano convicto, o editor José da Cruz Santos desafiou, no início desta década, o seu amigo Vasco Graça Moura (VGM) a conjeturar uma resposta à altura do imortal autor minhoto. É essa carta que constitui o cerne da nova edição, em que também encontramos um prefácio de VGM e quatro retratos de João Abel Manta sobre os dois vultos literários.

Na réplica camiliana, sob a pena também hábil de Graça Moura, deparamo-nos com o grande senhor de Seide a confraternizar com outros confrades no firmamento literário. "A despeito dos consideráveis progressos feitos pela comunicação humana no século XX, a missiva levou mais de cem anos a chegar ao seu destino", "escreve" Camilo, antes de mergulhar num exercício de estilo em que a ironia está sempre presente.

Com um misto de desalento e satisfação, sentencia que o outrora novato escritor "está agora tão irremediavelmente fora de moda" como ele próprio, nos antípodas do "remoto planeta que ambos uma vez habitámos, e naquilo que à literatura diz respeito, só está interessado no sexo". A solução, conclui, talvez passe por "apimentar" as passagens dos seus livros. "Vai ver que isso me reintroduzirá nos manuais para o décimo primeiro ano do ensino", remata, felino.

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