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E "sem poesia, a vida o que valia?"

E "sem poesia, a vida o que valia?"

Novo livro de poesia de Manuel Alegre, "Quando" é um longo e ininterrupto poema em que a reflexão sobre a passagem do tempo está omnipresente,

É já quase na derradeira página do seu novo livro de poesia que Manuel Alegre formula a questão definitiva: "Eu sei que pouco vale a poesia / mas sem poesia a vida o que valia?"
A resposta é dada nessa e na esmagadora maioria das páginas de "Quando", livro propositadamente breve e urgente que pretende ser menos um testemunho literário do que um manifesto profundamente humano em prol da dignidade (e) da vida em tempos nos quais a generalidade dos direitos tem vindo a ser suprimida e nem sempre por razões claras ou sequer admissíveis.

Escrito de fôlego durante o primeiro confinamento, "Quando" é um livro que reforça a ideia do poema como "última conjura", resquício de humanidade no processo de alienação de massas em curso.

Convocando para o discurso poético fórmulas de comunicação diversas e até antagónicas, como os dizeres populares, Alegre procura reforçar o vínculo da poesia ao real, ciente de que "o poema não tem código".

De Homero a Shakespeare, de Virgílio a Camões, "Quando" é um poema habitado pelo tempo. Incluindo o tempo presente, ou não fosse o autor de "Praça da canção" um homem sempre comprometido com os ideais em que acredita. E não faltam causas atuais por que o poeta ainda luta, como observamos no fragmento em que alude a figuras sinistras de "fato cinzento e chapéu cinzento" que "pensam cinzento, falam cinzento e copulam cinzento". No mesmo canto encontramos referências a cidades cobertas de sombras, com as "praças desertas ruas desertas um deserto por dentro / pessoas com grandes tubos na boca e ma alma / fantasmas de si mesmos / mortos sozinhos no seu próprio enterro".

Neste mundo virado do avesso, há referências a "alterações climáticas furacões incêndios cheias", demasiadas "citações para tanta calamidade" que fazem com que não saibamos se estamos perante "um fim, quem sabe se um começo".

Passado, presente e futuro fundem-se neste magma poético incandescente que conclui, a dado momento, que "tudo está tão diferente e afinal tudo está tão na mesma". Impressões momentâneas que são complementadas com evocações de uma vida longa e plena em que a morte já o rondou de perto, mas se viu esconjurada pelo divino: "SMS não é a minha escrita. / Será que Deus twita? / Faz como ele: clica e apaga / clica e apaga".

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