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Espantar o vírus pela força da palavra

Espantar o vírus pela força da palavra

Duas admiráveis reflexões poéticas sobre o nosso tempo marcam o regresso de João Pedro Mésseder aos livros, com "Companhia <(i)limitada" e "A quem pertence a linha do horizonte?".

Do confronto com a realidade nasce por vezes a inação ou o tolhimento, mas também o seu oposto. Isto é, a convicção tornada certeza de que, "mesmo cercado por inimigo invisível", ao Homem não compete outra coisa que não o "grito claro" capaz de nos alumiar (e sacudir) em dias difíceis

É a este último campo que pertencem os mais recentes escritos de João Pedro Mésseder, autor cujas criações no plano poético e na escrita para os mais jovens são sinónimo, há bem mais de duas décadas, de um entrelaçamento sedutor entre a inventividade e o rigor, alicerçados num comprometimento de causas que urge defender cada vez mais.

Escrito na primeira vaga da pandemia, entre março e junho do ano passado, "Companhia (i)limitada" é um conjunto de poemas de índole variada (a que não faltam os haicais) unidos entre si por um desígnio maior: a recusa da aceitação da indiferença perante o alastrar contínuo da doença nas suas múltiplas formas.

"Livrai-nos, Senhor, do novo coronavírus / e de outros que aí estão para chegar - / mas livrai-nos também do vírus do medo / livrai-nos depressa do vírus do medo", proclama o autor na "Prece" inicial do livro, um "anti-poema" que concentra habilmente várias referências a todos os outros vírus que nos ensombram os dias, sejam "os fundos abutres", "o assalto aos serviços do Estado", "a falsa caridade dos ricos" ou a "glorificação dos falsos heróis".

A mesma vontade de intervenção atravessa os restantes poemas. Quer se debrucem sobre os novos pobres, que aguardam ao relento a refeição que lhes ilude a fome, ou louvem a resistência de profissionais da saúde esgotados até ao limite, encontramos um propósito de resistência, imune ao vírus.

Já em "A quem pertence a linha do horizonte?", Mésseder e a ilustradora Ana Biscaia dão voz aos anseios do povo da Palestina, cuja luta pela independência é, antes de mais, uma luta pela sobrevivência. "Ser pássaro em Gaza / como é? / Ser peixe e abelha / como é / E como é / ser homem?", questiona(-nos).

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