Literatura

"Florbela Espanca é a nossa única diva literária"

"Florbela Espanca é a nossa única diva literária"

Há exatamente 90 anos falecia a poetisa Florbela Espanca. O seu percurso trágico deu origem a "Bela", um romance de Ana Cristina Silva que defende a "condição inseparável" entre a mulher e a autora, afirmou numa entrevista ao JN.


À já numerosa lista de aproximações biográficas a Florbela Espanca, dos livros aos filmes e séries, acaba de juntar-se mais uma obra. "Bela" é uma biografia romanceada em que Ana Cristina Silva desfia os contornos de uma vida em que o sofrimento e a escrita andaram sempre a par.

Ao fim da pesquisa e da escrita deste livro sente que cumpriu o pedido de Florbela Espanca na frase que escolheu como epígrafe, ou seja, conhecê-la?

Sim, acho que sim. Foi das personagens que me debrucei com mais compaixão e amor, emoções que são a base da empatia e da capacidade de compreender. Acho que compreendi como a sua história de vida em particular pode modelar uma personalidade. Entrando no reino da fantasia e da prepotência do autor, gosto de imaginar que se Florbela lesse este romance talvez sentisse que alguém lhe estendeu a mão, compreendendo a profunda mágoa com que viveu a sua vida.


Segundo já afirmou, fez alterações muito significativas no livro em relação à primeira edição, publicada pela Ambar em 2005. Foram alterações sobretudo formais e estruturais ou esforçou-se também por transmitir uma visão de Florbela Espanca diferente da anterior?

A primeira versão do livro tem 15 anos e foi escrita por outra escritora, com o bom e o mau que o avanço dos anos e a experiência podem ter. Eu era na altura uma escritora mais impulsiva, talvez mais apaixonada com o encantamento da escrita (o que é diferente de dizer que ficava encantada com o resultado final), aquele sentimento de sair do mundo e ir seguindo o rumo que as próprias palavras levam, aquele prazer de ver o encadeamento das frases a ter vontade própria. A diferença para a escritora atual tem a ver com a revisão que se vai fazendo. Nestes 18 anos que levo de literatura, o que aprendi foi a fazer revisões e a lutar comigo própria para a melhoria do livro e isso requer um trabalho mais analítico e menos apaixonado. Trabalhei a partir da primeira versão do romance, nem sequer aquele que saiu no livro da Ambar, mas a estrutura é praticamente a mesma e a visão de Florbela também, existe é uma outra depuração da linguagem.

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Florbela Espanca é das poucas figuras literárias portuguesas cuja vida deu origem a filmes, séries, peças ou livros. Nesse sentido, o que procurou acrescentar às criações já existentes sobre Florbela?

Se calhar essa compreensão por dentro, de como a sua história de vida influenciou a sua personalidade. Quando foi publicado a primeira versão do romance, não havia assim tantos... Existia uma fotobiografia editada pela D. Quixote, a biografia da Agustina (que evidentemente li) e o prefácio da Natália Correia no diário do ultimo ano. Foram essas as minhas fontes e evidentemente tudo o que Florbela escreveu, poemas, contos, cartas. Curiosamente nunca quis ver nenhuma das séries ou filmes sobre ela para não contaminar a minha visão. Nem antes nem agora.

Não sendo uma apaixonada da poesia de Florbela Espanca, o que a atraiu tanto na sua figura ao ponto de dedicar-lhe um projeto desta envergadura?

As fotografias o olhar, a forma como ela sabia fixar a câmara. Florbela, em criança, deve ter sido insistentemente fotografada pelo pai que era fotógrafo amador, pintor e antiquário, dando sessões de animatógrafo pelos arredores de Vila Viçosa. Florbela é talvez a única diva literária que temos, um ícone feminino cujas fotos são reconhecidas em todo o lado. Na época li "Blond", o romance da Carol Joyce Oates sobre a Marilyn Monroe e pensei em Florbela Espanca. Ambas se suicidaram com 36 anos, ambas ansiavam de forma obsessiva pelo amor.

A história da nossa literatura está cheia de grandes figuras no seu tempo que foram caindo no esquecimento aos poucos. Com Florbela Espanca passou-se exatamente o oposto. Como explica esse percurso improvável?

Os seus poemas incidem sobre sentimentos que são comuns às pessoas, o amor e a ânsia pelo amor ( que se torna muito sedutor para os jovens que experienciam as primeiras paixões), a dor e mágoa.. São poemas com uma sonoridade própria e que induzem a uma fácil identificação aos sentimentos pessoais.


Onde incidiu em particular a sua pesquisa?

O que eu estudei mais afincadamente foram os poemas, os contos, cartas e o seu diário do último ano, procurando enquadrá-los com os acontecimentos de vida, casamentos, desgostos, morte do Apeles, etc. e foi a partir do seu próprio material escrito que a reconstruí.

Através da leitura do seu livro fica bem evidente a procura desesperada do afeto que norteou a vida da Florbela. Acha que a escrita funcionava como uma catarse para ela ou, pelo contrário, acentuava a sua agonia?

A poesia era para Florbela a sua forma de expressão natural, ou, pelo menos, estou convencida disso. Tal como existem génios da música em que a sonoridade das melodias os acompanha para todo o lado, Florbela tinha dentro de si poemas. Não acho que fosse uma catarse nem uma forma de acentuar a sua mágoa, mas sim de a exprimir, de lhe dar forma e também de se sentir superior - ser poeta é ser maior - perante as múltiplas rejeições que sofreu ao longo da vida.

Fica a ideia que não havia um fosso entre a mulher e a escritora, ou seja, uma era a extensão da outra. Acredita também que sim?

Acredito profundamente nessa ideia. Existe, do meu ponto de vista, um poder de afirmação da personalidade literária de Florbela, onde a Florbela sujeito da sua própria vida e a Florbela autora de poemas se tornam inseparáveis. A interpretação da poesia da Florbela não pode ser separada das circunstâncias muito particulares da sua vida desde o nascimento, infância e casamentos.

Quais as principais razões que a levam a defender que Florbela Espanca era uma personalidade borderline?

Na génese de uma personalidade borderline encontram-se carências afetivas precoces, má qualidade de cuidados maternais. As personalidades borderline definem-se pelo desespero do abandono, o medo da perda do objeto enquanto apoio do sujeito. Esse desespero ou dor terá chegado à vida de Florbela com as circunstâncias muito particularidades da sua infância. Nascida de uma relação extraconjugal foi criada pela legítima mulher do pai que provavelmente nunca a aceitou. A mãe ia amamentá-la a casa da madrasta. O único amor seguro que terá conhecido na infância foi o do irmão Apeles. Além disso, o pai só a perfilhou muitos anos depois da sua morte. Florbela menina foi sem dúvida uma criança magoada. A angústia de separação e o vazio que afligem o sujeito borderline sempre afligiram Florbela. A dor repete-se nos seus poemas, cartas e diários. "Sou triste, imensamente triste, de uma tristeza amarga e doentia que a mim própria me faz rir às vezes", escreveu a Júlia Alves, diretora da Revista "Modas e Bordados".


Apesar do muito que já se escreveu sobre ela, é da opinião que ainda existem muitas zonas nebulosas do seu percurso que importava desvendar?

Uma personalidade complexa como a Florbela tem e terá sempre zonas nebulosas e daí talvez a escolha da estrutura seguida por mim romance. Essa possibilidade de zonas nebulosas é garantida, pela oscilação sistemática do foco narrativo, que ora é detido pela própria Florbela-personagem (que narra a sua história em 1ª pessoa), ora é concedido a um narrador aparentemente neutro, que nos mostra os mesmos acontecimentos, adotando alternadamente os pontos de vista das várias personagens que atravessaram a sua vida: a criada Teresa, que a encontra morta na casa de Matosinhos, o médico Mário Lage, seu terceiro marido; João Maria Espanca, o pai aventureiro e mulherengo; Antónia, a mãe a quem a filha é arrancada logo após o nascimento; Mariana Espanca, a madrasta; Alberto Moutinho, o primeiro marido; António Guimarães, o segundo marido. Esta estratégia narrativa permitiu-me o confronto entre as várias máscaras de Florbela Espanca.


À luz dos conhecimentos atuais em áreas como a Psicologia, acredita que o drama interior de Florbela Espanca não seria tão evidente caso ela vivesse nos nossos dias?

Provavelmente não. As circunstâncias do seu nascimento não seriam tão penalizadoras. Além disso, o facto de ter tido três casamentos e dois divórcios, o que levou à rejeição da sua família num certo período, não seriam, evidentemente, vistos da mesma maneira como foram no principio do século. Os dramas íntimos são também muito modelados pelos preconceitos que predominam nas sociedades.


Quão importante foi a sua formação académica nesta tentativa de desnudar a alma de Florbela Espanca?

A minha formação académica marca a minha escrita literária, no caso do romance "Bela", mas em todos os 14 romances, desde o primeiro sobre Mariana Alcoforado. Se há dimensão que me caracteriza enquanto autora é a densidade que procuro imprimir às personagens dos meus romances, tentando atingir a complexidade e caracterizar conflitos e contradições. Quase sempre é a dimensão mais interior e subjetiva que comanda a narrativa, a forma como os acontecimentos são filtrados pelas personagens e não os acontecimentos em si. Essa dimensão mais psicológica também se reflete no meu gosto em manipular estruturas narrativas (como acontece aliás no romance "Bela" - primeira e terceira pessoa). Já fiz um pouco de tudo, cartas e narrativas na terceira pessoa, romances na primeira pessoa pela voz de várias personagens etc., exatamente para se poder ver a personagem ou as situações de vários pontos de vista.


Ao longo da sua obra têm sido várias as figuras históricas ou literárias que a inspiraram para determinados livros. Quais as características fundamentais que elas devem ter para captar a sua atenção?

O que me atrai mais é um conflito tremendo - Em "Cartas vermelhas", Carol, uma comunista apaixona-se por um pide; Al`Mutamid, o rei poeta, assassinou por motivos políticos, e pelas suas próprias mãos, o seu melhor amigo, Rodrigo, a personagem de "A Segunda morte de Anna Karénina", que prefere ir para as trincheiras da primeira guerra mundial a enfrentar a sua própria homossexualidade.
E, evidentemente, a sua densidade psicológica como em Florbela Espanca ou Rimbaud. Por outro lado, há personalidades que se salientam dentro de um determinado contexto histórico, como por exemplo a D. Simoa de a "A dama negra da ilha dos escravos", exatamente por permitir falar do racismo e do papel de Portugal no tráfico de escravos no século XVI ou a Leninha de "As longas noites de Caxias", a pior Pide feminina que me permitiu abordar o fascismo e a tortura da PIDE.


Florbela é o terceiro poeta sobre o qual escreve, depois de Rimbaud e Al'Mutamid. É a sensibilidade particular dos poetas que a atrai antes de mais?

É antes a minha inveja dos poetas, seria incapaz de escrever poesia, apesar de adorar. Por outro lado, esses poetas são figuras relevantes com percursos de vida extraordinários e sempre com uma espécie de maldição em cima.


As biografias romanceadas têm um peso considerável na sua obra. Quais as especificidades deste género que fazem com que se dedique tão frequentemente a ele?

Este é o meu décimo quarto romance e as biografias romanceadas serão cerca de metade. Aliás estou neste momento a escrever outra... Talvez goste mais de interpretar do que escrever ficção pura e dura. Quer dizer é sempre ficção, quer se trate de uma interpretação literária e psicológica de uma personalidade, quer seja pura ficção. No romance biográfico desliza-se para a ficção da mesma forma do que aqueles que não o são como "A mulher transparente", "A noite não é eterna" ou "Salvação". Mas gosto de me apaixonar por uma personagem e talvez seja mais fácil desta maneira.

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