Humor à prova dos séculos

Humor à prova dos séculos

Publicado pela Tinta da China, "Discursos" é um precioso contributo para recordarmos os notáveis poderes oratórios de Mark Twain.

Por muito que custe a crer nesta era dos "youtubers", "influencers", "bloggers", "coaches" e outras sumidades que tais deste vazio que ilusoriamente nos preenche, houve um tempo em que os escritores eram escutados. E não apenas como exemplares excêntricos de um mundo que já não é este, a quem se dá um pouco de palco com a mesma boa vontade e espírito misericordioso com que contribuímos para um peditório da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Mas sim como porta-vozes da sabedoria coletiva, autênticos oráculos para todos quantos, dos analfabetos aos letrados, sabiam estar na presença de alguém cuja contribuição para a sociedade estava muito para além da fria realidade estatística ou numérica.

De todos os incontáveis exemplos que poderíamos enumerar, Mark Twain talvez seja mesmo o expoente máximo. A fama, o prestígio, o reconhecimento e a admiração suscitados pela sua figura não têm paralelo entre os intelectuais dos dias de hoje.

Dos Estados Unidos à China, da Inglaterra à Austrália, milhares acorriam à sua passagem. Em sinal de reverência por alguém que, embora fosse respeitado tanto por académicos como por políticos, nunca perdeu a ligação ao real. Um só exemplo ilustra esta fama sem precedentes: em 1894, em virtude dos desastrosos investimentos financeiros que fez, Twain encontrava-se falido. A solução encontrada passou por organizar uma digressão mundial durante longuíssimos meses que lhe permitiu saldar grande parte das dívidas acumuladas.

Algumas dessas intervenções podem ser lidas nestes "Discursos", volume que integra a coleção de humor de Ricardo Araújo Pereira na Tinta da China. O que encontramos é a verve sem par do autor de títulos ainda hoje lidos como "As aventuras de Mark Twain". A espirituosidade e inquietude espreitam amiúde em cada texto, derrubando em larga medida as barreiras temporais que a distância de mais de um século acaba sempre por provocar.

"Proponho abolir os agentes da polícia que andam por aí armados com bastões e revólveres e substituí-los por uma brigada de poetas armados até aos dentes com poemas sobre a primavera e o Amor", escreveu o prolífico autor no início de um discurso lido em 1900 na residência oficial do governador de Nova Iorque que não pode ter deixado de provocar hilaridade geral. Ontem como hoje.