A cápsula do tempo de Rubem Fonseca

A cápsula do tempo de Rubem Fonseca

Aos 93 anos, o lendário autor brasileiro Rubem Fonseca mantém intacto o seu ímpeto criativo. "Carne crua", a sua nova safra contística, oscila entre o ótimo e o insuficiente.

Indiferente ao natural peso da idade, à aclamação da sua obra e até às críticas duras a parte significativa da sua produção mais recente, Rubem Fonseca continua a escrever e a publicar a um ritmo notável. Dir-se-ia que, aos 93 anos, o autor de livros incontornáveis como "A grande arte" ou "Feliz ano novo", vive numa cápsula do tempo.

Pelo modo como continua a recusar os efeitos do tempo, mas também pela repetição exaustiva da fórmula que o notabilizou justamente como um dos grandes criadores de língua portuguesa do derradeiro meio século. O escritor parece ter noção do facto e compraz-se disso mesmo, como refere, ainda que por interposta personagem, no conto "Papai Noel": "Ao contrário do que diz o poeta, eu não me contradigo, eu me repito. Posso ser muitos, mas sempre o mesmo. Isso pode ser discrepante, mas como diz outro escritor (como escrevinham esses sujeitos, caramba!) a gente é o que quer ser e eu quero ser um só, e sou".

"Carne crua" apresenta-nos a sua safra mais recente. À semelhança dos seus últimos livros, prima pelo desequilíbrio, ao reunir contos que tanto poderiam figurar ao lado da sua melhor produção contística, como outros que parecem saídos de um concurso de imitadores do próprio Rubem Fonseca. O melhor exemplo disso mesmo é o conto inaugural,"A praça", uma desconjuntada narrativa sobre um solitário incorrigível que chega ao cúmulo de referir que o nome da namorada de Fernando Pessoa era Odete e não Ofélia.

A ausência de inspiração estende-se a pelo menos ourta meia dúzia de narrativas, em que Fonseca recorre a factóides avulsos recolhidos da Internet para impressionar os mais incautos ou para disfarçar os finais apressados. O moralismo lamechas é também uma pecha cada vez mais frequente das suas histórias, nas quais invariavelmente os maus são penalizados pelas atrocidades cometidas.

O que continua a tornar absolutamente recomendáveis os livros de Rubem Fonseca, apesar dos pecadilhos já falados, é que a redenção aparece sempre quando menos se espera, seja através de uma ou outra história tocada pela inspiração ou por parágrafos contundentes que nos relembram o seu génio. É nesses momentos que se torna evidente para nós que a sua faca, após tanto uso, continua aguçada, manuseando-a com raro talento.

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