A diva de voz aveludada está de regresso a Portugal

A diva de voz aveludada está de regresso a Portugal

Há 50 anos que a cantora brasileira Joyce Moreno faz da voz o seu cartão de visita. Neste sábado à noite, sobe ao palco do Auditório de Espinho para um concerto que a própria diz, em entrevista, esperar ser muito especial".

De Elis Regina a Milton Nascimento, de Ney Matogrosso a Gal Costa, quase todos os músicos brasileiros mais cotados das últimas décadas já interpretaram temas de Joyce Moreno. Se sairmos do seu Brasil natal, a lista é ainda mais longa e inclui nomes como Annie Lennox, Omara Portuondo ou Gerry Mulligan.

São mais de 400 as músicas que criou desde que, com apenas 20 anos, se estreou em disco. O ímpeto criativo continua tão ativo ainda hoje que, confessa, "por vezes tenho que colocar um travão a mim mesma".

Quando vê outros nomes a darem voz aos temas que compôs, garante que uma sensação de felicidade se apodera de si. Mesmo que muitos ouvintes acreditem que essas músicas não são de sua autoria. "As canções são como um filho. Ganham asas e temos que as ir soltando para o mundo", diz ao JN numa conversa telefónica a partir da Suécia, um dos setes países que fazem parte da digressão europeia em curso.

A celebração dos 50 anos de carreira vai estar no centro do concerto deste sábado, às 21.30 horas, no Auditório de Espinho, única data nesta passagem por Portugal. Nada dada "a nostalgias", a artista carioca, de 70 anos, regravou o seu disco de estreia "para dar uma cara atual a um reportório que ainda hoje é válido". Volvido este tempo, Joyce não tem dúvidas de que "sou hoje muito melhor artista do que no início: em cada dia aprendemos coisas novas, fará em 50 anos".

O início da sua carreira coincidiu com a chegada ao meio artístico de outros nomes míticos da música brasileira, que ainda hoje mantêm intacto o seu prestígio. Apesar de concordar pertencer a "uma geração de ouro", Joyce Moreno não reclama unicamente para os artistas desse tempo o exclusivo do talento. "Há uma nova geração de ouro que está a ser formada. Só não tem as oportunidades que nós tivemos. Fazer música criativa hoje é muito mais difícil hoje do que há 30 ou 50 anos. A música que está no 'mainstream' é patrocinada", diz, exemplificando com o apoio que o setor agropecuário dá à música sertaneja e os evangélicos ao gospel.

A presença de Joyce Moreno nos palcos portugueses não é tão assídua quanto gostaria. Uma evidência que lamenta, porque mantém com Portugal uma relação especial. Foi em Lisboa que teve a primeira apresentação internacional, em 1969, no Teatro Rivoli, ao lado de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. De então para cá, veio de forma sempre espaçada, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Japão, onde tem convites para ir todos os anos. "A minha relação com o Japão é coisa de vidas passadas. Desde 1985 que fiquei fascinada com o país. Temos uma relação estável. É uma família que tenho do do outro lado do mundo".

Serena e descontraída, só se deixa cair num estado de preocupação com assuntos muito sérios. Como o estado atual do país, que acompanha ao pormenor: "Os governos neoconservadores que têm chegado ao poder um pouco por todo o lado provam que, mesmo democraticamente, se pode votar contra a democracia".

Quando faltam poucas semanas para a tomada de posse de Jair Bolsonaro, a lendária artista considera que o maior risco pode vir dos seguidores, que levam à risca as mensagens implícitas deixadas pelos líderes. "É como se liberassem os demónios das pessoas", afirma, consternada com a possibilidade de "a diversidade cultural do país ficar ameaçada".
Igualmente preocupante é o que considera ser a escalada fundamentalista em curso, sem fim à vista. A autora de "Saudade do futuro" diz mesmo que "existe um projeto em curso" que tem como "elevar uma religião em detrimento de todas as outras".