A estranheza como normalidade literária

A estranheza como normalidade literária

Marina Perezagua, uma das vozes mais admiradas da nova geração de escritores espanhóis, tem mais um livro publicado em Portugal. "A tempestade" reúne vários contos escritos ao longo dos anos.

É uma missão de alto risco associarmos o universo literário de Marina Perezagua a uma só corrente ou até estado de alma.

Cruéis, misteriosas ou simplesmente desconcertantes, as narrativas que integram a coletânea "Tempestade" furtam-se a tentativas de catalogação demasiado rígidas. O que só abona em seu favor, como é evidente.

Apesar de, num primeiro momento, o estilo desta sevilhana de 40 anos que escolheu Nova Iorque para viver nos remeter para a escrita de Amélie Nothomb, a verdade é que à autora belga que fez furor na década de 90 do século passado sempre faltou a versatilidade de que a escrita de Perezagua dá mostras.

Na muito peculiar arte do conto, a autora de "Dom Quixote em Manhattan" - livro que deve ser publicado em breve em Portugal - revela um manejo apreciável, ao lograr construir em cada narrativa curta uma atmosfera característica.

É o que acontece com "As ilhas", em cuja história acompanhamos as deambulações de um veraneante que, aborrecido com a pacatez das férias, se evade da realidade num colchão insuflável enquanto tenta uma aproximação a uma misteriosa mulher nas mesmas condições.

"Um só homem só", por sua vez, leva-nos a acompanhar os últimos instantes de um condenado à morte. Enquanto espera pela injeção fatal, é acometido de visões perturbadoras de antepassados seus em períodos muito desfasados no tempo que, de forma direta ou indireta, contribuíram para o seu destino.

"A alga" introduz-nos na vida de uma mulher capaz de suster a respiração durante vários minutos que simula a própria morte só para ver a reação dos amigos e familiares.

A dificuldade de associar a escrita de Perezagua a um só estilo não é alheia ao seu gosto pelos extremos - a autora define-se em entrevistas como "muito intuitiva e ao mesmo tempo muito analítica", o que ajuda a explicar muito do que escreve.

Se a escrita é seca e cortante, a atmosfera por si criada parece denunciar um calculismo e um rigor assinaláveis.

A aparente variedade estilística de Perezagua não interfere com o essencial: a unir todas estas pontas soltas encontra-se o amor na sua multiplicidade de formas. Mesmo quando resvalam para a violência ou o ódio, é sempre a busca do amor que preside aos atos.

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