A felicidade como demanda sem fim

A felicidade como demanda sem fim

Afonso Cruz regressa aos romances com o apelativo "Princípio de Karenina"

Há reminiscências de Lev Tolstói no mais recente livro de Afonso Cruz, amplo e mundividente como tem habituado os seus leitores ao longo dos anos. A começar pelo próprio título, que nos remete para o célebre arranque de Ana Karenina ("Todas as famílias felizes são parecidas, todas as infelizes são infelizes à sua maneira").

É, sumariamente, de felicidade de que fala "Princípio de Karenina". Ou, para se ser mais exato, das múltiplas possibilidades que existem de acedermos a esse estado. Mas também do medo do desconhecido, dos muros que se erguem só porque sim, numa escalada interminável da qual encontramos abundantes réplicas na nossa própria realidade.

Numa trama narrativa aparentemente linear, mas cerzida com competência para que as únicas dobras que nela se vejam sejam as próprias dobras do mundo, Afonso Cruz demonstra o seu à-vontade na capacidade de convocar para os seus livros a completude que só en contramos nos outros, estejam eles à distância de um toque ou do outro lado do Mundo.

Não surpreende, por isso, que, como explica o autor no final, a ideia para o livro tenha surgido numa viagem ao Vietname e ao Cambodja em 2017, que teve como propósito a descoberta de "vestígios de nós próprios pelo Mundo, em lugares tão distantes como a Cochinchina (que titulava a viagem) e, porventura, encontrar essas mesmas geografias dentro de nós".

Elogio da tolerância e da aceitação sem pendor moralista, "O princípio de Karenina" consiste numa longa carta escrita por um pai a uma filha que não conhece. Educado por um pai inseguro e uma mãe fugidia, ele próprio começou por exibir, ainda que sem disso tivesse consciência, o condicionamento cultural deque foi alvo durante a infância.

"O meu pai chamava bárbaros a todos os que viviam fora da nossa casa, os gregos chamavam bárbaros aos que não eram gregos", recorda o narrador. O resultado ameaçava ser a perpetuação da vida enfadonha e triste dos seus progenitores, assim como um casamento eternamente infeliz. Até ao momento em que o amor o golpeou sem piedade e logo por alguém cujo exotismo se habituou desde sempre a as sociar, por medo, a tudo quanto fosse negativo.

Sem chão, mas com a alma cheia, ele soube nesse instante que a sua vida começara exatamente aí.