A guerra é apenas um estado de espírito

A guerra é apenas um estado de espírito

Um fulgurante romance de João Reis sobre o absurdo da existência e em particular da guerra.

Quem leu "A noiva do tradutor" (Companhia das Ilhas, 2015) não pode ter deixado de notar no imergir de uma nova voz na literatura portuguesa. Nessa breve narrativa, João Reis acompanha o delírio interior de um tradutor que, na demanda pela sua noiva desaparecida, se vai enfurecendo com todos aqueles com que se vai cruzando pelo caminho.

A influência evidente de Céline, Knut Hamsun ou Kafka em nada perturba a identidade de um autor que já no livro inaugural se mostrava interessado em esmiuçar os absurdos da existência.

Se "A avó e a neve russa" (Elsinore, 2017) confirmou os bons augúrios iniciais, é, todavia, com o presente "A devastação do silêncio" que o autor natural de Vila Nova de Gaia se afirma de modo mais notório.

Situando a ação na Primeira Guerra Mundial, João Reis descreve-nos o quotidiano de m campo de prisioneiros alemão repleto de soldados aliados. Nessa miríade de nacionalidades há também portugueses, membros do Corpo Expedicionário Português que combateram em batalhas na Flandres e se destacavam dos demais pela óbvia impreparação. O narrador, por sua vez, é um capitão que, devido ao extravio de documentos, vê abortada a sua intenção de ser transferido para um campo de prisioneiros, pelo que fica confinado a um campo de prisioneiros comuns, com a dramática falta de condições, tanto sanitárias como alimentares, que isso implica.

É nessa descrição, tão vívida quanto inesperada, da batalha pela sobrevivência, que reside o grande mérito do romance. Se nos habituámos a que os típicos romances de guerra fossem quase sempre sinónimo de heroicidade, dramatismo e desespero, João Reis socorre-se de um aliado poderoso, mas improvável: o humor. Para enfatizar o absurdo que qualquer guerra representa, por mais sérias ou "justas" que sejam as suas causas, vale-se da ironia e do sarcasmo.

Contrapontos perfeitos ao clima de insanidade dominante, bem evidente no facto de os soldados arriscarem a vida a combaterem inimigos que nem sequer conhecem, enquanto os senhores da guerra debitam ordens confortavelmente sentados numa poltrona. Como confessa a dada altura o narrador, cujo tom grave apenas o torna mais risível, "a guerra para nós era somente um campo com pulgas e piolhos, não havia que reclamar, tínhamos de ser pacientes".

ver mais vídeos