A história real de Gisberta contada pela ficção

A história real de Gisberta contada pela ficção

Novo romance de Afonso Reis Cabral, "Pão de Açúcar", conta a história de Gisberta, transexual brasileira assassinada há uma dúzia de anos no Porto. Vencedor do Prémio Leya diz que "foi este romance que me fez escritor"

Há 12 anos, um crime chocou o país: Gisberta, transexual brasileira, foi brutalmente assassinada no Porto por um bando de miúdos entre os 12 e os 16 anos. Esta era, precisamente, a idade de Afonso Reis Cabral na época.

Ainda a viver nessa altura no Porto, o Prémio Leya 2014 lembra-se do "espanto" que lhe causou a notícia. Mais do que o crime em si, mostrou-se incrédulo por ver "um grupo de rapazes da minha idade a fazer uma coisa daquelas".

A memória do caso nunca chegou a apagar-se, mas só há dois anos, ao ler notícias acerca do décimo aniversário do crime, é que a ideia de dedicar um livro ao caso ganhou forma. Tão rapidamente que abandonou o romance que estava a desenvolver para escrever "Pão de Açúcar", agora publicado.


"Fiquei agarrado à história. Sabia-se o fim, mas faltava o resto, ou seja, saber como se passa da ajuda inicial para a brutalidade que se seguiu. Essa mudança parecia-me inexplicável", recorda.

Nos 18 meses que se seguiram, Afonso Reis Cabral dedicou ao livro todo o tempo que tinha e até o que não tinha: despediu-se do emprego para que nada o atrapalhasse na missão a que se havia proposto.

A escrita, "uma obsessão"

Regressou ao Porto inúmeras vezes, calcorreou os mesmos locais por onde deambulava Gisberta e o gangue juvenil, com especial enfoque nas imediações do complexo habitacional devoluto, entre o Campo 24 de Agosto e a Avenida Fernão de Magalhães. Falou com testemunhas, consultou autos da polícia, relatórios forenses e a sentença judicial. Chegou até a pesquisar os relatórios do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para ter a certeza do estado do tempo no Porto no primeiro trimestre de 2006. "A escrita é uma obsessão, mas, neste caso em especial, ainda foi mais", reconhece, enaltecendo a importância da pesquisa para "absorver o espírito do local".

Não chegou a falar com os jovens condenados, mas devido a opção pessoal, por sentir que esse contacto poderia contaminar o projeto. "Senti que a história pedia ficção. Queria criar um espaço para pegar numa estrutura real e pôr personagens em ação, inventados ou não", diz, convencido de que "o cruzamento entre a realidade e a ficção é a única forma de tratar este tema".

Resolvida a questão formal de escrever o livro na primeira pessoa - através da visão do Rafa, um dos jovens envolvidos - e encontrada a forma de "humanizar os intervenientes sem que isso tenha significado desculpabilizá-los", o autor chegou ao fim do intenso processo com a certeza de que "foi com este romance que me tornei escritor".

Para esse convicção, contribui sobremaneira o facto de, ao contrário do anterior, este livro "não ter sido dado", diz. Se "O Meu Irmão" partia de uma história familiar - a do seu próprio irmão, um ano mais novo, portador do Síndrome de Down -, desta feita o desafio que enfrentou foi "muito maior", ao retratar um conjunto de jovens oriundos de famílias desestruturadas. "Este livro foi conquistado. E, acima de tudo, deu-me a certeza que é isto que quer fazer. A escrita é o que me realiza", destaca.

Pelo tema e pela violência nele incluída, é difícil não pensarmos no icónico "A Sangue Frio", de Truman Capote. As diferenças começam e terminam aqui. Apesar de o autor admitir que leu o livro "mais do que uma vez". Enquanto Capote fez do relato da chacina de uma família no interior do Kansas uma exemplo maior do chamado "jornalismo literário", Reis Cabral diz ter tido outros propósitos: "É um relato ficcional a partir da realidade que foi aquele caso terrível. Quis distanciar-me do caminho seguido no livro 'A Sangue Frio'".

Agora que "Pão de Açúcar" chegou aos leitores, o romancista acredita "mais do que nunca" que "a melhor maneira de impedir a repetição destes casos é estarmos sempre vigilantes". Por isso, se o livro ajudar "a que o crime não caia no esquecimento será ótimo", reforça.

Lançamentos à espreita

Já há duas sessões de apresentação marcadas. A 9 de outubro, às 19 horas, no Café Rivoli, Pedro Abrunhosa vai conversar com o autor e interpretar o tema "Balada de Gisberta". Uma semana depois, às 19.30 horas, na Ler Devagar, Bruno Vieira Amaral vai falar sobre o livro.

Caso inspira artistas

Do teatro à literatura, não faltam exemplos de obras que partiram do caso Gisberta: Alberto Pimenta publicou o poema "Indulgência Primária" e no cinema, Thiago Carvalhaes assinou a curta "A Gis". No teatro, Rita Ribeiro deu corpo ao monólogo "Gisberta". O mesmo nome da peça que o brasileiro Luis Lobianco vai apresentar no Porto e em Lisboa no final do ano.