A liberdade não está a passar por aqui

A liberdade não está a passar por aqui

"Estocolmo", novo romance de Sérgio Godinho, é um 'thriller' envolvente sobre um jovem sequestrado. Uma prova mais de que a veia ficcional do músico veio mesmo para ficar.

Tão presente na fase inicial da sua carreira, a liberdade enquanto valor supremo da existência volta a desempenhar um papel essencial no segundo romance de Sérgio Godinho. Desta feita, não no sentido coletivo - o de um povo privado da liberdade de expressão -, mas num contexto muito mais específico: a da esfera privada do indivíduo.

Vicente, estudante de Psicologia de 20 anos, e Diana Albuquerque, jornalista televisiva com lastro de vedeta, são as personagens em torno das quais a quase totalidade da narrativa é construída. Só já perto do final entra em cena um terceiro elemento, decisivo para o desfecho da história.

O par conhece-se quando o jovem vai a casa da jornalista após ter visto um anúncio de aluguer de um sótão. O espaço, amplo e confortável, logo lhe enche as medidas. Tal como a proprietária. O idílio é breve, ao ver a porta dos aposentos subitamente fechada à chave. Mas o que Vicente julgava tratar-se de um simples erro ou brincadeira de mau gosto é, afinal, a revelação do lado sombrio de uma figura que se habituara a ver na condução dos noticiários televisivos.

A raiva que o estudante sente por ver-se privado de tudo é contrabalançada pelo fascínio que Diana exerce sobre si. Hábil e fogosa, enleia o rapaz num jogo sentimental do qual ele, por mais que tente, não consegue libertar-se. Todas as tentativas que faz nesse sentido apenas vêm reforçar a certeza interior de que o seu destino está nas mãos da jornalista.

É então que percebemos que o título "Estocolmo" nada tem que ver com qualquer surpresa narrativa guardada para mais tarde sobre a bela capital sueca, mas com o célebre síndrome que se traduz nos estranhos laços afetivos que um sequestrado estabelece com o seu raptor.

Recluso mas apaixonado, Vicente vive sentimentos díspares. Por um lado, não esconde a fúria por ter visto a sua pacata existência bruscamente interrompida, mas não deixa de exibir também o arrebatamento próprio de quem vive uma relação intensa ao lado de uma mulher muito mais experiente e conhecedora do que ele.

É nesta improvável inversão de papéis - Vicente enquadrar-se-ia mais, à partida, no lugar do raptor, em vez do de vítima - que reside grande parte do centro de uma história em cujo centro não faltam propostas de reflexão. A começar pela já falada liberdade: serão as prisões sem grades mais ameaçadoras e cruéis ainda do que as tradicionais? Uma relação amorosa pode ser considerada como tal quando um dos envolvidos está privado desse bem maior?

Com um grande domínio da tensão narrativa, Sérgio Godinho faz desta sua segunda incursão pelo romance um bem sucedido "thriller" que encontra parte da sua força na densidade psicológica das personagens, sobretudo a magnética Diana Albuquerque.