A literatura (e)levada a peito

A literatura (e)levada a peito

"Mamas & badanas", um ensaio irónico sobre algumas das obsessões dos autores nacionais, marca o regresso aos livros de João Pedro George.

No afã politicamente correto que ainda domina a literatura portuguesa, João Pedro George (JPG) é uma das suas figuras curiosas, tendo construído ao longo da última vintena de anos a imagem de "enfant térrible". Por gostar de abalar consensos, muitos deles artificiais, revela ainda um gosto muito particular, como já confessou, por irritar "aqueles que se acham mais cultos do que a maioria".

Ambas as características estão plasmadas no seu novo livro, "Mamas & badanas", que assenta em dois estudos muito distintos. Na primeira parte, George analisa os textos das badanas e contracapas; no derradeiro estudo compila excertos que demonstram como os autores da pátria são "doidos por mamas".

O entusiasmo com que se inicia o livro - JPG escreve sem tibiezas, com ironia e alguma dose de sarcasmo - vai diminuindo de forma progressiva até tornar-se num exercício redundante e, aqui e ali, até penoso. Por uma questão de ordem metodológica, sobretudo: ao querer provar o acerto das teorias que desenvolve em cada uma das partes do livro, o autor de "Couves e alforrecas" fez um inventário tão exaustivo de citações e fragmentos que acabou por diminuir de forma substancial o prazer da leitura da obra.

O outro pecadilho do livro é o de ter colocado todos os autores, independentemente da valia ou credibilidade da respetiva obra, no mesmo plano risível, o que dá azo a situações essas sim hilariantes.

No estudo inaugural, o sociólogo explica como as badanas e contracapas dos livros portugueses se transformaram em exercícios de glorificação do ego, recorrendo a um estilo no mínimo duvidoso para enaltecer os méritos (imaginários ou não) das obras em causa. Nessa subordinação da literatura aos ditames do marketing, tudo vale para cativar (?) o leitor, até revelar a prole e confessar fobias (mais ou menos) secretas.

Não menos prolixa é a segunda parte. Embora se louve o autor (e até se sinta uma certa pena dele) por ter sido forçado a ler centenas de passagens avulsas que comprovam à saciedade que a literatura portuguesa é "o país das mamas nuas", como escreve, a verdade é que JPG teria sido bem mais eficaz se contextualizasse devidamente cada passagem em vez de limitar-se a discorrer excertos pseudo-eróticos sem critério.

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