A literatura portuguesa deixou de ser bem comportada?

A literatura portuguesa deixou de ser bem comportada?

Há cada vez mais autores portugueses a escrever sobre sexo. Escritores, editores e críticos literários reconhecem essa mudança, mas apontam os riscos em resvalar-se para o mau gosto e apontam o Brasil como modelo na abordagem do tema.

"Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas".

À conta de passagens como esta, escrita por José Rodrigues dos Santos no romance "O Códex 632", a suspeita ganhou foros de quase certeza entre leitores, escritores e editores, como já sintetizou o crítico literário Pedro Mexia: "um dos traumas da ficção portuguesa é o sexo foleiro".

"Há dezenas e dezenas de páginas de sexo foleiro nos romances portugueses", defendeu.

Qual, afinal, a grande dificuldade de escrever sobre sexo de forma convincente?

José Riço Direitinho, que publicou há poucas semanas "O escuro que te ilumina, romance definido como "pornográfico, brutal, perigoso e inclassificável", garante que a tarefa é árdua. "Depressa a mão escorrega para o ordinareco, para a escrita vulgar, para a piada estafada. É sempre preciso encontrar um tom digno e depois mantê-lo, o que não é uma coisa fácil", explica.

No seu mais recente livro, "Antes que seja tarde", Margarida Rebelo Pinto diz que foi "mais longe do que nunca", aprofundando um interesse que se tem acentuado nos últimos romances. O desafio, assegura, "é incrível", porque exige que se "doseie tudo: as pausas, os adjetivos, os verbos, o ritmo, para nunca levantar completamente o véu".


"Doidos por mamas"

A fronteira do gosto. O argumento é invocado com frequência por outros autores. Como Rita Ferro, muito crítica da "objetificação" feminina na literatura. "As mulheres que aparecem nos livros em cenas íntimas são objetos unidimensionais, sem espessura... Há um défice de humanização, pois ninguém sabe o que elas pensam".

A tese é partilhada por João Pedro George, cujo livro mais recente, "Mamas & badanas", é parcialmente dedicado à representação dos seios na nossa literatura. Os resultados são avassaladores: "os escritores português são doidos por mamas", já que, ao contrário do que acontecia até meados do século XX, as personagens dos livros têm todas bustos avantajados, podendo estes assumir formas tão variadas como "colossais", "intermináveis", "valentes", "ricos", "irresistíveis", "fartos", "voluptuosos" ou "cheios", entre centenas de outros adjetivos.

Além disso, observa o autor de "Não é fácil dizer bem", "o homem é sempre vítima do desejo que a mulher lhe suscita".

Para George, o problema nem se cinge à literatura e pode ser facilmente estendido à pintura, escultura ou cinema. Como se, explica, "a arte fosse feita a pensar apenas na fruição masculina".

Há também quem - como já o fizeram publicamente Francisco José Viegas ou Miguel Sousa Tavares - atribua a dificuldade em escrever sobre sexo às limitações da língua portuguesa, alegadamente parca em vocabulário de pendor sexual. Já a romancista Filipa Martins prefere destacar "o equilíbrio difícil" que é preciso fazer na descrição da passagem sexual para que não se caia no melodrama e na poética ("um bom romancista está longe de ser, por garantia, um bom poeta", diz) ou se corra, pelo contrário, o "risco de passar a barreira do erotismo e aterrar com estrondo na pornografia".

"O sexo, ao contrário da vírgula, pode ser colocado entre o sujeito e o sentimento da frase. Ou seja, para romantizar uma cena sexual é preciso ter a necessária mestria, não lhe retirando credibilidade. Haverá algo mais próximo e mais afastado do amor romântico que o sexo?", questiona a autora de "Na memória dos rouxinóis".

As diferenças entre erotismo e pornografia também são acentuadas por Rita Ferro, que sublinha a sua "escrita sexuada, mas sem descrições gráficas". Embora o sexo explícito não lhe interesse, reconhece que são essas imagens que perduram no imaginário dos leitores, como acontece no seu mais recente livro, "Um amante no Porto". "A arte também é o que fica por dizer. Prefiro, por isso, o erotismo, por ser muito mais subtil e humano", acrescenta.


"Deus, pátria, família"

A "representação tímida" que o sexo teve na nossa literatura até muito recentemente em nada surpreende Manuel da Silva Ramos. O autor natural da Covilhã, cuja obra está mergulhada em sexo desde que se estreou com o premiado "Os três seios de Novélia", em 1969, encontra dois culpados: "a influência da religião católica" e o "caráter e mentalidade dos portugueses". E exemplifica: "Nunca vi no metro uma mulher a ler a Violette Leduc ou a Anaïs Nin". Pouco crente numa inversão de um panorama que considera débil, considera que a escassez de leitores leva a que "os editores exijam dos escritores mais novos uma literatura que se venda". Para cúmulo, "como são as mulheres o grossos do pelotão dos compradores tudo fica em paninhos quentes".

Poetisa e editora, Maria do Rosário Pedreira defende, por sua vez, que a repressão vivida no período do Estado Novo fez com que "o sexo tenha demorado a instalar-se" na nossa literatura. Mas também a Igreja ajudou, ao ser "contra o sexo lúdico". "Ora, num sistema como este é natural que os livros não contivessem cenas de sexo até por 'cautela' (a censura vigorava) mas também quiçá por falta de experiência dos autores (das autoras, pelo menos)".

Uma posição que não diverge da de Margarida Rebelo Pinto, para quem "o inconsciente coletivo ainda é regido pela bitola espartilhada herdada do Estado Novo: Deus, Pátria, Família, umas mulheres para umas coisas, e outras para outras". Além disso, aponta, "em Portugal acontece tudo, mas é debaixo dos panos, à porta fechada, com as cortinas corridas. Essa ausência de sentido de liberdade profundo trava a pena. A minha não trava, mas outras penas sim".

Mudança acelerada

A literatura "bem comportadinha" que, segundo Riço Direitinho, sempre marcou a criação portuguesa está em acelerada mutação, embora este autor considere que a nova geração continue "a fugir a algo que abane a moral vigente". Ainda assim, parece indesmentível já a datação do ensaio "O erotismo na ficção portuguesa do século XX" em que António Mega Ferreira escreve sobre a "rasura do erotismo na prosa narrativa", em contraste com a poesia.

As mudanças têm sido de tal ordem que, de acordo com Maria do Rosário Pedreira, "passámos do silêncio sobre o tema à pornografia. "Veja-se o Afonso Noite de Luar ou o Francisco Salgueiro", afirma, ressalvando que "não são verdadeira literatura e talvez por isso não contem".

Ao invés, há autores contemporâneos que captaram o tema com desenvoltura. Filipa Martins refere Alexandra Lucas Coelho e João Pinto Coelho; José Riço Direitinho cita Eduardo Pitta e Maria do Rosário Pedreira destaca Isabela Figueiredo e José Eduardo Agualusa. Da autora de "A gorda" defende que é possível escrever sobre sexo "com grande qualidade, direita ao assunto, sem medos nem mau gosto"), enquanto afirma que o romance de Agualusa "A estação das chuvas" foi "uma lufada de ar fresco".

"É tão fácil ou difícil escrever sobre sexo como sobre uma paisagem. Exige é trabalho constante", observa João Pedro George, que aponta "o ritmo de publicação" a que os autores são obrigados como um dos óbices principais à representação convincente do sexo na literatura pátria.

O que é que o Brasil tem?

Há um ponto em que todos concordam: no que toca à abordagem do sexo, os autores brasileiros aparentam um maior desembaraço no tema.

Margarida Rebelo Pinto diz mesmo que "não há comparação possível". "Não existe pecado do lado de baixo do Equador. O brasileiro é português à solta", sustenta a autora, que cita Jorge Amado ("o rei desse jogo lúdico"), Nelson Rodrigues ("um príncipe") ou Machado de Assis ("uma delícia") como baluartes dessa arte.

Manuel da Silva Ramos desfia outros autores - "Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Fernando Sabino, etc." -, mas concorda que "a literatura brasileira está mais avançada nesse domínio". E questiona: "O romance 'Pornopopeia', do Reinaldo Moraes, seria possível em Portugal? Acho que não".

Contactado pelo JN, Reinaldo Moraes, 'himself', foi questionado sobre o sacramental tema: será o 'jeitinho malandro' associado aos brasileiros o culpado pela diferente abordagem ao sexo nos livros? Com (muito) humor à mistura, o autor de "O cheirinho do amor" explica que os portugueses "são ativos coautores" das obras literárias brasileiras que supostamente lidam muito bem com o sexo. Relembra, por isso, a forma como começaram por envolver-se "com todas as índias que encontraram pela frente", prosseguiram com as africanas tornadas escravas, "criando, inclusive, a figura esplêndida da mulata, cantada em prosa e verso pelos poetas priápicos d'aquém e d'além mar".
"De tanta fodelança resultou o 'jeitinho malandro', num mix carnal luso-afro-sul-americano. Não se eximam, meu caros - relax and enjoy!", conclui.

Se não somos "crus e arrebatados como os brasileiros", nem sequer "elegantes e crus como os anglossaxónicos", Filipa Martins assevera que "temos a metáfora como arma particular na língua portuguesa e tão bem explorada ao longo de século". Os exemplos são variados e incluem até Eça de Queiroz, que, no eterno "O crime do Padre Amaro" , apela à sugestão para falar dos arroubos sensitivos: "Amélia lá estava, imóvel, toda pálida. O pároco fechou a porta -e foi para ela, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro".

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