"A nossa única defesa é o conhecimento"

"A nossa única defesa é o conhecimento"

O Holocausto voltou a inspirar Richard Zimler para um romance, mas desta feita numa perspetiva diferente: a culpa que os sobreviventes sentem por serem os únicos sobreviventes da família.

A culpa e o remorso que dois primos sentem por terem sido os únicos sobreviventes do Holocausto na família atravessa "Os Dez Espelhos do Benjamin Zarco", o novo romance de Richard Zimler, com o qual retoma o designado "ciclo sefardita" da sua obra.

Preocupado com o avanço do fascismo e antissemitismo em várias partes do globo, o escritor luso-americano defende um reforço da disciplina da História no ensino.

"Saberei o que ando a procurar nos meus livros quando o encontrar", podemos ler num dos diálogos iniciais do livro. É o Richard Zimler a falar através de uma das suas personagens?
É uma frase que reflete o meu processo de escrita. Sei o que vai acontecer no primeiro capítulo, mas no resto do livro não faço a mais pequena ideia. Vou descobrindo o que o livro quer ser, o que quer narrar.

Gosta da ideia de um livro ser uma procura permanente?
Não poderia escrever de outra forma. Sei que há romancistas que planeiam tudo e já sabem que no décimo primeiro capítulo o narrador vai casar-se, no décimo quarto vai divorciar-se... A descoberta da história fica mais surpreendente para mim se for descobrindo as personagens à medida que as vou conhecendo melhor. É um processo mais arriscado, mas que me dá mais retorno.

Se lhe desafiassem a dizer o que procura nos livros, o que responderia?
O primeiro objetivo é sempre contar uma história. Uma história maravilhosa que desperte emoções no leitor. Para mim, a escrita não é um processo meramente intelectual. Quero atingir o leitor no coração e na alma. Faço isso através das personagens e da qualidade da escrita.

Benni e Shelly, os dois primos que carregam a culpa de terem sido os únicos sobreviventes da família no Holocausto, são personagens marcantes. Trá-los ainda dentro de si?
Claro. É curioso, porque ultimamente tenho tido insónias por causa do novo romance. E no meio dessas horas de vigília penso muito em Benni, inventando histórias acerca dele que podia ter incluído no livro. Chego ao ponto de criar diálogos entre ele e o filho sobre assuntos tão diversos como o desporto ou as eleições no Brasil.

Os dois primos encontraram formas muito diferentes de lidar com o remorso: um entrega-se à leitura de textos sagrados e outro ao sexo. Não há formas mais corretas do que outras?
O mais comum entre os sobreviventes do Holocausto é recusarem-se a falar dos traumas. Dentro de si, carregam uma culpa sem fim. Não conseguem compreender como foram salvos, ao contrário do que aconteceu com os seus pais ou irmãos. O destino escolheu os sobreviventes de uma forma aleatória. Nada teve que ver com os valores e qualidades. Em casos desses, o ser humano procura razões, mas elas não existem.

Se o mesmo se passasse hoje com as novas gerações, acha que também se remeteriam ao silêncio?
É provável que não, porque hoje, sobretudo nas redes sociais, partilha-se tudo. Na sociedade ocidental, fala-se da vida sexual com toda a gente de forma natural. Seria interessante fazer um estudo acerca do efeito da cultura sobre o silêncio.

Para lá da questão do Holocausto, acha que há uma universalidade na história que faz com que qualquer leitor se identifique com a narrativa?
Penso que sim. Todos sofremos traumas terríveis, como a morte de um irmão, a doença, a perda dos pais num acidente... Não conheço ninguém que não tenha passado por isso. A questão é saber como lidamos com isso. Se sofremos em silêncio ou se podemos partilhar essa dor com alguém. Isso vai criar no leitor, qualquer que seja a sua origem, uma ligação. É uma experiência universal.

A nível estrutural este romance também foi desafiante, com a divisão por capítulos. Como chegou a essa solução?
Escrevi o primeiro capítulo e gostei muito. O Eti conta tudo de uma forma pormenorizada e caótica. Mas achei que o que ele tinha a dizer se esgotava nesse capítulo. Como ele falou de outras personagens fascinantes, cheguei à solução de escrever outros capítulos pela voz de outras figuras.

Mas mantendo a unidade.
Sim, porque comecei a pensar no livro como um mosaico. Na altura não sabia quantos capítulos o romance ia ter, mas achei que podia ter peças diferentes que se encaixavam umas nas outras. Quis desafiar o leitor a participar na construção do livro.

Mais uma vez toca na ferida, ao falar de temas incómodos como o remorso e a culpa entre os sobreviventes. Isso tem a ver com a sua personalidade subversiva?
Tem. Há vários pontos subversivos neste livro que a comunidade judaica pode nem gostar sequer. Há muitos judeus, por exemplo, que dizem que não devemos fazer comparações entre o Holocausto e qualquer outro crime contra a Humanidade, porque é único. De certa forma, têm razão, dada a dimensão do crime: quase seis milhões de judeus foram mortos. Mas, para mim, podemos utilizar o conhecimento do Holocausto para protestar e usar toda a raiva para tentar impedir que outros crimes sejam cometidos. Na história falo do exemplo de muitos judeus estarem a favor da guerra no Vietname, ao contrário do que defendia Benni. Sei que muitos judeus não gostarão disso, porque podem achar que estou a colocar no mesmo plano esses dois trágicos eventos, mas eu conheço o Benni e sei que ele quando protesta o faz apenas porque estão em causa crimes contra a Humanidade.

Já teve ocasião decerto de falar com sobreviventes do Holocausto...
Sim.

Viu-se na necessidade de falar com mais para trabalhar neste romance?
É possível agora ver vídeos de sobreviventes a falarem da sua experiência e isso é muito útil. Desde pequeno que li Primo Levi e Anne Frank, muitos dos meus vizinhos eram sobreviventes do Holocausto... Quando se cresce num bairro judeu como eu é natural.

Quem acompanha os seus livros ao longo dos anos não deixará de notar um maior investimento na densidade psicológica. Isso resulta do seu aperfeiçoamento como escritor ou como ser humano?
Os dois. Hoje sou um escritor muito mais competente. Sei lidar com as técnicas de escrita. O mesmo se passa na música ou noutra área qualquer. Por isso é que digo que o Richard Zimler que escreveu "O Último Cabalista de Lisboa" já não existe. Se tivesse escrito este livro há 25 anos seria muito diferente. Este livro é de uma pessoa muito mais madura. Muitos dos personagens são velhos e estão a enfrentar a morte. Só um autor mais maduro faz isso. Os jovens estão demasiado ocupados a viver.

Compadece-se com o destino das suas personagens?
Um escritor que relata quase sempre na primeira pessoa, como eu, tem que entrar na pele do narrador. Sou um ator. Entro na pele das diversas personagens e vejo pelos seus olhos. Canalizo as emoções para o narrador. É a única maneira de narrar com impacto,

Sente que seria capaz de colocar-se no lugar de qualquer pessoa?
Não estou minimamente interessado em pôr-me no lugar de Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Há pessoas que tentam analisar a psicologia de Hitler. A mim não interessada nada. A importância dele foi ter provocado uma guerra responsável pela morte de seis milhões de judeus e 500 mil ciganos, destruindo a Europa pelo meio.

Acha que há um risco de humanizá-lo, sempre que se faz uma análise psicológica?
O Trump, como pessoa, não me interessa. O que quero analisar é o efeito dele sobre o Mundo. Talvez fosse mais interessante entrar na cabeça de um terrorista islâmico, por exemplo. Não para justificar, mas para compreender como é que alguém educado como qualquer outra pessoa é capaz de entrar numa praça em Bagdade e fazer-se explodir, matando 50 pessoas.

Há quem defenda que, sob determinadas condições, somos todos assassinos. Concorda?
Somos o produto da nossa genética e do nosso ambiente. E este pode, sem dúvida, determinar o rumo de uma pessoa. Alguém sereno e pacífico em certo ambiente pode transformar-se num assassino sob outra atmosfera. Mas existem pessoas que têm uma resistência capaz de fazer frente a qualquer ambiente. No Holocausto, os sobreviventes adotavam estratégias muito diferentes - havia quem fosse muito egoísta e outros que revelaram grande generosidade. Como explicar isso? A meu ver, os nossos atos resultam de uma combinação entre esses dois fatores.

Este é o quinto livro que escreve sobre a família Zarco, o chamado ciclo sefardista. É um capítulo ilimitado?
É o que adoro. Felizmente, a História portuguesa é maravilhosa, de tão multifacetada que é. Posso colocar o dedo em qualquer ponto do globo e situar um romance lá.

Os portugueses estiveram em todo o lado.
É. Na Índia, América do Sul, Ásia, América do Norte... Posso colocar os Zarco em qualquer lado. Isso dá-me uma grande vantagem. Temos tendência a desvalorizar a História portuguesa, reduzindo-a aos Descobrimentos. Mas Portugal foi muito mais do que isso.

Há muito que ouvimos falar do regresso em força do antissemitismo, mas nunca como hoje estiveram reunidas tantas condições para isso, concorda?
Vivemos num mundo perigoso. Jair Bolsonoro pode ficar à frente de um país muito grande e com enormes recursos e potencialidades. O homem é um neonazi fascista que odeia os negros e despreza as mulheres. Tenho muito medo pelos meus amigos brasileiros, porque há um risco grande de a ditadura voltar.

Como se explica que haja mulheres, negros e homossexuais que vão votar nele?
Há pessoas que interiorizam o desprezo da sociedade. Como pode um judeu votar nesta pessoa? Só alguém que não sabe nada de História. O fascismo nunca construiu nada. Só destruiu. Na Alemanha, em todo o lado. Mesmo a nível económico, nunca resultou em lado. Eles invocam o medo do comunismo. Mas como foi possível chegarmos a um ponto ekm que só há dois extremos numa eleição?

Perante a eleição iminente de Bolsonaro, Trump arrisca-se a ser um líder moderado?
Sim. Em comparação com Trump, Bolsonaro é mais inteligente, embora não muito mais. Trump é ignorante, enquanto Bolsonaro é capaz de ser mais maquiavélico.

Até em países que sofreram com o nazismo, como a Polónia, há fenómenos de extrema-direita.
Em momentos em que há crises nas instituições, tanto políticas como judiciais, abre-se a porta para a entrada dos demagogos criarem um governo fascista. A Polónia nunca conseguiu criar uma democracia estável depois do fim do comunismo. Como pode um polaco votar num protofascista quando 3.5 milhões de cidadãos seus foram mortos na Segunda Guerra Mundial pelos nazis e outros tantos foram feitos escravos? O problema é que na Europa existe a fantasia da raça pura. A Angela Merkel disse há uns tempos que o multiculturalismo fracassou na Alemanha. Ao dizê-lo, só demonstrou que não conhece a própria História. A Alemanha foi uma construção de etnias diferentes. Já era um país multicultural.

Estes casos só provam a falência do ensino da História?
É o que acho. Temos que reformular a maneira de educar os filhos e fazer da História uma das disciplinas-chave, ao lado das línguas e da matemática.

A ascensão desses políticos, como Trump ou Bolsonaro, está muito ligada a estratégias de desinformação. O que é, no mínimo, irónico, ao vermos que vivemos na chamada era da informação.
A nossa única defesa é o conhecimento. Quem conhece a a sua própria História, a psicologia do ser humano e o funcionamento das economias não vai acreditar nas notícias falsas. As teorias da conspiração que circulam nas redes sociais são particularmente perigosas, porque criam um público preguiçoso. Não querem pesquisar porque é que a ditadura nunca é solução. É por isso que também não gosto dos livros que assentam nestas premissas das conspirações. Contribuem para que o público não investigue os assuntos.

Num mundo cada vez mais fraturado, vamos vê-lo cada vez mais interventivo do ponto de vista cívico?
Tento adicionar a minha voz a causas que acho justas. Estou a favor da eutanásia e do movimento "Ele Não!", só para dar alguns exemplos.

Mesmo que não seja consensual.
Estou constantemente a ser insultado nas redes sociais, o que me leva a crer que quase não dá para manter uma conversa adulta e séria no Facebook. As pessoas não conseguem manter o nível.