A paixão sem fim do "Senhor Jazz"

A paixão sem fim do "Senhor Jazz"

José Duarte, o incansável promotor cultural, reuniu textos com várias décadas no livro "Cinco minutos de jazz", o mesmo título da sua lendária rubrica radiofónica.

Não há muita gente cuja simples menção do nome seja sinónimo de uma atividade ou género. José Duarte é um desses raríssimos exemplos. A sua dedicação ao jazz é tal que todas as homenagens que lhe poderão ser feitas ficarão sempre aquém do contributo que deu para que o jazz em Portugal fosse hoje uma realidade tão vibrante.

No ar todos os dias há 53 anos, atualmente na RDP-Antena 1, "Cinco minutos de jazz" não é só o mais antigo programa de rádio em atividade. É uma verdadeira instituição. Mas a ação de "Jazzé" em prol da música estendeu-se aos outros meios: da televisão aos jornais, dos livros à Internet, em todos procurou deixar a sua marca muito pessoal.

O livro agora publicado pela Pim recupera o texto da edição original de 2000, mas vai muito além, ao aparecer revisto e, sobretudo, aumentado.
O texto mais recente é datado do ano transato e pode ser considerado uma verdadeira preciosidade: José Duarte entrevista Maxine Gordon, viúva do mítico saxofonista norte-americano Dexter Gordon, e passa em revista a sua convivência com outros gigantes como Louis Armstrong, Charles Mingus ou Lionel Hampton.

Da biografia que Dexter iniciou mas que a própria esposa viria a concluir, sem esquecer a sua participação no filme "Round midnight", a conversa é uma boa síntese da forma intensa como Dexter Gordon se entregava ao jazz e sobretudo ao "be bop", que ajudou a criar.

É também uma entrevista outro dos artigos mais marcantes de um livro cujas 200 páginas escritas foram escritas de modo quase jazzístico, ou seja, livre mas ao mesmo tempo compassado.

O diálogo que manteve com Carlos Paredes em 1990 é uma rara oportunidade de relembrarmos o seu modo desprendido de estar na música e a forma desarmante como reagia perante as manifestações de apreço para com o seu trabalho: nesse mesmo ano, Paredes gravou um disco com o contrabaixista Charlie Haden.

Apesar da admiração mútua, percebe-se que entre ambos havia um oceano de afinidades a separá-los. Quando Duarte comenta com Paredes que os seus discos "são semelhantes, na sonoridade e na forma", este reage com vigor: "Não são. São bastante diferentes. Ainda noutro dia estive a ouvir discos que publiquei há anos e há diferenças. A novidade não está em fazer uma mecânica diferente".