A sabedoria secreta do mundo animal

A sabedoria secreta do mundo animal

Nome maior da literatura japonesa, Kobayashi Issa está finalmente publicado em Portugal. "Os animais" assinala a estreia nacional deste mestre do haiku.

"Vou-me embora - arrendei a minha casa às abelhas", proclama Kobayashi Issa (1763-1827) no primeiro das muitas centenas de haikus incluídos no livro "Animais", primeira tradução para português da obra do mestre japonês.

Nele, encontramos uma síntese da forma serena, mas livre, como via o Mundo: a natureza, o Homem e os animais estão indivisivelmente ligados e a felicidade de um implica idêntico estado no outro.

Há nos animais, na lógica do autor, uma sabedoria secreta que carregam desde sempre. Compreendem o que os rodeia de uma forma tão plena que os homens tendem a desvalorizá-la, valendo-se da sua força.

Com humildade e humor, Issa socorreu-se deste singular género poético assente na brevidade para deixar a sua marca. A serenidade que deles imana é tanto mais surpreendente porque a sua existência foi marcada pelo infortúnio - órfão desde cedo, perdeu a mulher e os filhos, além de vicissitudes várias.

Em vez de ver a revolta crescer dentro de si até se deixar soçobrar por ela, respondeu com uma forma poética de estar na vida. Calcula-se que tenha escrito 20 mil haikus, 10% dos quais foram consagrados ao mundo animal. Dos animais mais garbosos aos vistos como insignificantes, o poeta dedica-lhes o mesmo olhar de profunda comunhão e uma recusa da habitual visão de superioridade dos humanos face aos restantes seres vivos.

Além de comover-se com o seu destino ("gansos deixem-se ficar! - o sofrimento está por todo o lado"), ele também se extasia perante o espetáculo que proporcionam ("inseto voando e cantando - para mim").

Não são escritos privados de conflito ou turbulência, afastando-se, nesse sentido, da conceção budista da vida. Contudo, em todas as situações em que o poeta se vê envolvido, procura que haja uma solução que satisfaça todos, levando em conta que o caracol "um dia será Buda".

Da extrema simplicidade destes escritos, resulta, por vezes, a ilusória ideia de que são ingénuos ou toscos. Mesmo que não tenham a profundidade dos de Bashô, a verdade é que contêm um sentido de humanidade tão acentuado que torna a leitura um ato de renovado interesse. No caso presente, as notas do organizador Joaquim M. Palma revelam-se um auxiliar precioso para quem quer aventurar-se nos mistérios da poesia oriental.