O Jogo ao Vivo

A verdadeira matéria de que somos feitos

A verdadeira matéria de que somos feitos

No seu mais recente livro de contos, "Burgueses somos nós todos ou ainda menos", Mário de Carvalho confronta-nos com as vilezas da espécie humana.

Tornou-se um lugar comum a associação imediata e quase única dos livros de Mário de Carvalho à riqueza da sua escrita. É compreensível, em parte, essa ligação. A par de Mário Cláudio, o autor de "Um Deus passeando pela brisa da tarde" é um dos derradeiros artesãos da língua portuguesa, alguém em cujos textos ressoa a grandíssima e secular tradição literária lusitana.

Lendo a sua mais recente criação, notamos com alívio que os anos não lhe amaciaram a exigência. Bem pelo contrário. Detetamos na sua lavra uma continuada procura da formulação mais expressiva e da exploração ampla dos recursos estilísticos que lhe são oferecidos pela língua. Em termos lexicais, "Burgueses somos nós todos ou ainda menos" volta a confrontar-nos com essas potencialidades, recuperando do esquecimento palavras tão vetustas como "perlenga", "rifoneiro", "gaifonas" ou "hausto", só para citar alguns exemplos.

O que essa visão dominante não enfatiza é que, por mais excelsa que seja a sua escrita, ninguém lê os livros de Mário de Carvalho apenas por esse motivo, tal como, por absurda que pareça a comparação, ninguém consome de livre vontade óleo de fígado de bacalhau só porque faz bem à saúde.
O material humano nele com tido (dos dramas interiores aos conflitos sociais) é o que nos impele para a sua leitura. É esse o caso dos 11 contos que estão reunidos no livro que se socorre do belíssimo verso de Mário Cesariny.

Nesse inventário de maleitas do espírito que percorre as histórias, deparamo-nos com viuvezes precoces que revelam segredos inconfessáveis, filhos gananciosos para quem o parentesco nada diz quando comparado com a solvência económica ou antigos colegas de escola azedados pelo tempo. Há um desencanto inescapável, uma inelutável sensação de proximidade do fim, que percorre estas histórias habitadas por personagens da classe média: medíocres umas, vingativas outras, mas jamais conformistas.

São acima de tudo seres seres que, embora tenham a consciência de que o melhor das suas vidas já ficou lá bem para trás, tentam adiar, por pouco que seja, o impacto com a decadência. É uma luta inglória, sabem-no bem, pelo que as suas atitudes exalam sempre um certo desespero, mas nem por isso eles se tornam menos enfáticos nos seus propósitos.