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"A violência distancia-nos da condição humana"

"A violência distancia-nos da condição humana"

A escritora sul-coreana Han Kang esteve no Porto para falar sobre o seu novo livro, "Atos humanos", revisitação de um massacre ocorrido há quase 40 anos. "O que se passou naquele dia ajudou-me a compreender melhor a condição humana", afirmou ao JN vencedora do Man Booker Internacional de Prize de 2016.

A frágil voz de Han Kang é quase inaudível, mas o que diz (e sobretudo o que escreve) merece ser escutado em voz bem alta. De regresso ao Porto ao cabo de três anos - "a cidade não parece a mesma... está cheia de turistas!", lamentou-se, pesarosa -, a escritora sul-coreana falou na Feira do Livro sobre os desafios e contradições de um país rasgado ao meio há mais de meio século e sem perspetivas de reconciliação a breve trecho.
No seu novo romance, "Atos humanos", a autora do celebrado "A vegetariana" debruça-se sobre um dos episódios mais negros da história recente da Coreia do Sul: o massacre de Gwangju. A 18 de maio de 1980, a ditadura militar liderada por Chun Doo-hwan reagiu com violência extrema ao levantamento popular, dizimando centena e meia de pessoas.

Natural de Gwangju, Han Kang, então com nove anos, abandonou a cidade quatro meses antes da tragédia, instalando-se na capital, Seul, mas nunca esqueceu o sucedido. "O que se passou naquele dia ajudou-me a compreender melhor a condição humana. Os militares responderam com ódio e violência à dignidade e à força da coragem mostradas pelo povo", defende a escritora.

Se as marcas da tragédia a acompanham desde a infância, foi só depois de ter completado 40 anos que a autora sentiu ter atingido a maturidade para abordar o tema num livro. Mais do que provocar sensações nos leitores, confessa ter pretendido apenas sentir o mesmo dos que vivenciaram o massacre. "Precisava encontrar respostas para o que tinha acontecido e o livro foi a solução que encontrei. O tom contido explica-se pelo facto de não ter querido exagerar nem dramatizar nada. Só perderia eficácia se o fizesse".

"Só me interessa a paz"

O título que escolheu, quase assético, é uma "tentativa de reflexão sobre a Humanidade", diz: "A verdade é que há atos humanos que nada têm de humanos. Por isso, quis saber até que ponto a violência nos pode distanciar da condição humana".

Embora os cidadãos de hoje estejam expostos a todos os tipos de violência, Han Kang resiste em classificar estes tempos como dos mais brutais da História, até porque ela tem "acompanhado a Humanidade desde sempre".

A dor que atravessa "Atos humanos" poderia facilmente transformar o livro numa obra de pendor pessimista. Uma armadilha que diz ter evitado ao escolher como protagonista um rapaz empenhado em minorar o sofrimento dos outros através de gestos insignificantes, mas valiosos na cicatrização da dor. "É um romance que se move lentamente em direção a um lado mais luminoso dos Homens, apesar de começar com uma tragédia", assume.

Esperança é também o sentimento manifestado pela vencedora do Man Booker Internacional Prize 2016 quando o assunto é a aproximação das duas Coreias. Recusando avaliações políticas - "só me interessa a paz", garante -, Kang destaca a mesma herança cultural, histórica e linguística das duas nações. "Acredito que um dia possa haver a reunificação, mas há tantas dificuldades... Será positivo que venha a acontecer. Somos irmãos. Tal como posso viajar para qualquer parte do Mundo, é justo que os cidadãos da Coreia do Norte também o possam fazer".

Saudades do período pré-Booker

Um ano após ter recebido o Man Booker International Prize pelo romance "A vegetariana", Han Kang diz não ter assimilado esse impacto. "Tento não ser atingida pelo efeito que teve. Gostava de voltar à rotina anterior, em que tinha calma e tempo para escrever ou viajar", diz. Falar em público ou conceder entrevistas são obrigações que, embora rotineiras, custam a entrar nos seus hábitos.

"Não é fácil expor-me e evito sempre falar sobre a minha vida privada", considera a escritora, que atribui "à barreira da língua" a dificuldade dos autores asiáticos se imporem noutros mercados.

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