"Agustina Bessa-Luís era tudo menos simples"

"Agustina Bessa-Luís era tudo menos simples"

Autora da primeira biografia de Agustina Bessa-Luís, Isabel Rio Novo diz que os livros da autora continuarão a ser lidos com o mesmo encanto daqui a mil anos. "A obra da Agustina é universal e intemporal", defende.

Foram dois anos e meio intensos os que Isabel Rio Novo dedicou à biografia de Agustina Bessa-Luís, a primeira que se publica desde o breve ensaio biográfico escrito há 40 anos pelo ensaísta e professor universitário Álvaro Manuel Machado. O resultado é "O poço e a estrada", livro publicado em meados deste mês que inaugura uma coleção dedicada a grandes vultos da cultura portuguesa.

Terminou a biografia com a sensação de que decifrou o enigma chamado Agustina?
O mais que podemos fazer é ficarmos com a sensação de que nos aproximamos um pouco mais do enigma. É uma pessoa tão extraordinária que dificilmente alguma vez o seu enigma será desvendado.

A biografia deixa à vista as contradições em que Agustina Bessa-Luís foi pródiga. Como analisa a mudança de opinião que ela frequentemente tinha, por vezes até acerca do mesmo tema?
Era da própria natureza dela ser insubmissa, inesperada e avessa a consensos. Ela era tudo menos simples.

Sendo uma mulher oriunda do Norte e conservadora, o seu reconhecimento não era provável. Génio à parte, qual foi o seu maior trunfo para o êxito?
Além da sua resiliência e de uma consciência muito precoce da sua vocação literária, o grande trunfo foi ter encontrado o Alberto Luís. Quando parti para esta biografia não ignorava a dimensão intelectual do marido, mas descobri que ele ajudou a dar mais solidez à formação cultural da Agustina. Acompanhou-a em viagens e foi alguém que reconheceu desde o início o extraordinário talento da mulher e tudo fez para o apoiar. E ainda por cima tinha talento: podia ter sido um excelente pintor se se tivesse dedicado em pleno.

O livro é abundante em citações dos livros de Agustina. É uma forma de homenagem?
Um dos objetivos para este projeto é o de chamar mais leitores para a sua obra. Quando parti para esta pesquisa, tinha noção de que uma das vantagens era a de ter um conhecimento profundo da sua obra. Sou leitora compulsiva dos livros dela desde a adolescência. Além disso, como sempre afirmou nas entrevistas, na sua obra ressoam muitas marcas autobiográficas. Ela coloca repetidamente em cena, às vezes de forma obsessiva, as suas origens, a sua geografia humana. Tive a certeza disso durante a pesquisa.

Há fios invisíveis que ligam todos os seus romances.
Sim, dá a ideia de que ela escreve sempre o mesmo livro. Como vários estudiosos têm assinalado, a sua estética passa muito pelo inacabado e fragmentado. Quando a escrita de um romance termina, isso aconteceu porque ela determinou que assim e não porque a estrutura assim o ditasse.

É por isso que diz que os livros de Agustina serão lidos com o mesmo encanto daqui a mil anos?
O grande tema dos livros dela é a natureza humana, as pulsões dos homens, e nesse sentido, como essa dimensão é igual em todos os tempos e todos os lugares, a obra da Agustina é universal e intemporal, sem deixar, contudo, de estar arreigada ao tempo em que viveu.

A família da Agustina Bessa-Luís não colaborou no livro a partir de determinada altura. Como procurou contornar essa limitação?
A partir do momento em que fui confrontada com essa mudança, que aconteceu por razões editoriais, optei por concentrar-me nas fontes de pesquisa ao meu alcance. Recolhi uma centena de entrevistas, pesquisei nos registos oficiais os seus textos autobiográfico e elaborei uma lista de pessoas com quem falar. À medida que ia falando com elas, a lista foi aumentando porque me foram sugerindo outras pessoas. Muitas disponibilizaram-me os arquivos e fizeram muito mais do que conceder um testemunho. A consulta das cartas que trocou com Eugénio, Vieira da Silva, José Régio ou Ferreira de Castro também foi importante. E depois houve, claro, a visita aos lugares.

A romancista que também é teve que ficar para segundo plano no livro?
O lado da ficcionalização, sim. Da forma como concebo a biografia, acho que é importante o biógrafo colocar o seu olhar. Por muitos critérios que se possa eleger, uma biografia é sempre subjetiva, porque é feita de escolhas. Enquanto leitora, gosto que a presença do autor se sinta. Em última análise, é uma pessoa a escrever para outras pessoas.

Por que razão não se considera agustiniana?
Sou uma leitora apaixonada e tenho um conhecimento de cariz enciclopédico sobre os seus livros. Agora, no sentido académico, seria preciso que tivesse dedicado todo o meu percurso académico à sua obra.