"Aprendi mais na guerra do que na política"

"Aprendi mais na guerra do que na política"

De regresso ao romance, com "Sua Excelência de Corpo Presente", Pepetela falou ao JN sobre a longa carreira política e o futuro do seu país, não se esquecendo sequer de recordar a experiência política.

Recentemente homenageado em Penafiel, no âmbito do Escritaria, Pepetela não desistiu de acreditar na sua Angola. Apesar das dificuldades do presente, o escritor acredita nas mudanças anunciadas pelo novo presidente angolano, João Lourenço. O único lamento vai para a perda contínua de poder da literatura, sobretudo entre os mais jovens, que atribui à concorrência crescente do digital.


Passam este ano quatro décadas desde o episódio em que comunicou a Agostinho Neto (primeiro presidente angolano após a proclamação da independência) que queria ser escritor e dedicar-se a tempo inteiro à tarefa, abandonando o cargo de ministro da Educação. Foi um dos momentos decisivos da sua vida?
Eu sabia que queria ser escritor. Depois da libertação, independência e consolidação, senti que era altura de começar a pensar em mim fora da atividade política.

Qual foi a reação do Agostinho Neto?
Ele disse-me que compreendia, mas que ainda precisavam de mim. Quando fosse chegada a altura libertavam-me.

Entretanto, ele faleceu. Acha que cumpriria a promessa?
Acredito que sim. Dois ou três anos depois, dar-me-ia permissão para sair. Ele sempre me incentivou a escrever. Quando o José Eduardo dos Santos tomou posse, ainda esperei dois anos para que ele não pensasse que estava a querer sair por sua causa.

Olhando à sua volta na literatura angolana atual, vê novos Pepetelas em potência?
Vão aparecendo, talvez não tantos como esperava. Há meia dúzia que se impuseram fora, uns mais, uns menos. Não é muito, se virmos a quantidade de jovens ligados à escrita que havia há 40 anos. Nos primeiros anos toda a gente queria escrever e publicar. A União de Escritores tinha até alguma dificuldade em selecionar os que podia publicar.

A literatura perdeu terreno para outras formas de expressão e criação?
É um fenómeno global. Está a perder terreno, mas também a orientar-se por outros caminhos. O cinema, por exemplo. Os guionistas fazem literatura. No caso angolano, a música sempre teve mais importância.

Não seria expectável que, com a paz e a maior escolarização, os livros chegassem a mais gente?
A concorrência é muito maior e vem de muitos mais lados. Até dos telemóveis.

Tem dito que escreve cada vez menos, mas acaba de sair um novo livro seu. A pulsão criativa está ainda muito presente?
Sim, mas desta vez demorou mais. Acho que foi o período mais longo em que estive sem publicar. Só tinha uma ideia muito vaga: a do morto a contar uma história. Hoje escrevo menos, durante menos tempo e com condições piores, como escrever de pé. Quando passo muito tempo sem escrever é a minha própria mulher que me relembra isso, dizendo que estou a ficar impossível.

Quem o trata hoje por Artur Pestana?
Poucas pessoas. Quando me chamam Pestana ou Pestanita na rua, olho para trás. Regra geral é alguém que me conhece desde muito novo.

É dito na contracapa do novo romance que "que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Todavia, é difícil não encontrar equivalentes reais para as personagens e situações narradas...
Há uma parte dos leitores que procura encontrar pessoas nos personagens e este livro presta-se muito a isso. É fatal. Foi o livro que me levou para esse caminho. A ideia inicial que tinha era a de alguém que morre e assiste ao seu próprio funeral. Ao fim de pouco tempo percebi que tinha que ser um chefe de estado, até porque tinha havido na altura episódios envolvendo vários, quer tenham sido empurrados para fora do poder ou se tenham agarrado ao lugar. Sabia que os angolanos iam achar que era Angola, mas um senegalês podia achar o mesmo sobre o seu país.

O livro acaba por ser uma reflexão sobre o exercício do poder em África. Todos os ditadores são mais parecidos entre si do que se julga?
Acho que sim. A partir de uma certa altura agarramo-nos ao poder e perdemos empatia com as pessoas, minimizando o seu sofrimento ou ódio.

Defende a existência de mecanismos que limitem a perpetuação no poder?
Devem existir mecanismos que limitem os mandatos. Não podemos estar à espera que seja o próprio a determinar isso, até porque ao fim de algum tempo - dois mandatos - ele próprio muda e a sua perceção da realidade.

Quando lemos este livro pensamos em Machado de Assis...
A literatura brasileira marcou-me muito a juventude. Só mais tarde é que me apercebi dos contactos com o livro do Machado de Assis.

Pela leitura do livro, compreendemos que se há coisa que um líder político não tem na verdade são homens de confiança. Um político deve desconfiar da própria sombra?
Ah, acho que convém.

A experiência política foi-lhe de alguma forma útil na literatura e neste livro em particular?
Sim, sobretudo a experiência que tive na tomada de decisões capazes de afetarem pessoas. Muitas vezes são decisões que se tomam em abstrato.

Foi essa consciência que fez encurtar sua experiência política?
Não apreciava essa responsabilidade. Durante muitos anos tive várias pessoas que dependiam de mim e nunca gostei. Era uma violência sobre mim. Queria libertar-me disso. Escrever apenas.

Onde aprendeu mais lições de humanidade: nos gabinetes ministeriais ou nas trincheiras?
Nos gabinetes não foi, na guerra, sim. A guerra é horrível, claro, mas as pessoas usam uma máscara mais fina quando se encontram lá. São mais sinceras nas reações e comportamentos. Escondem menos. Dá para conhecer melhor os outros. O Homem define-se melhor em situações extremas, como a guerra.

Muitos dos seus livros são cáusticos para o regime. A sua sorte é que a classe política não lê?
(risos) Curiosamente, em Angola os livros nunca sofreram sanções, ao contrário da censura que existia nos jornais.

Isso acontecia por chegarem a pouca gente?
Talvez, mas também tem que ver com a classe dirigente, que sempre teve muitos escritores. Isso pode ajudar a explicar porque nunca houve interferências na literatura.

Um escritor ou um poeta no poder agiria de forma muito diferente?
É simpático dizer que sim, mas não acredito.

Acima de tudo, são homens.
E homens políticos. Primeiro reagem como políticos.

Como tem visto estes primeiros tempos da presidência de João Lourenço?
Com um certo otimismo. No primeiro ano tem havido um cumprimento das promessas da campanha. É claro que as dificuldades são imensas. Há também resistências, que ele tem conseguido superar. Devido aos problemas económicos, ainda não se notam as melhorias, bem pelo contrário. Mas se nos ficarmos pela análise à liberdade de expressão ou à relação entre os partidos políticos, a situação não tem nada a ver. Até a oposição tem reconhecido isso. Tudo isso faz com que o povo esteja mais confiante.

A luta contra a corrupção deve ser a prioridade?
É, porque está instalada de forma incrível em todo o aparelho de Estado. Podemos atacar a corrupção que está no topo da pirâmide, mas é preciso não esquecer a que está na base. É menos importante, mas também está generalizada. Para tratar de qualquer documento, é necessário pagar "gasosa" (suborno). Por isso, mais cedo ou mais tarde, as pessoas podem reconhecer que o discurso do presidente é bom, mas continuam com mais fome do que antes. E o desemprego continua a subir.

Para quem esteve no poder durante quase 40 anos, acha que ele devia ter preparado melhor a transição do poder?
Ele podia ter saído em beleza no fim da guerra e acredito que quis, mas havia muita gente que deve ter insistido para que continuasse. Foi-se enredando numa série de teias que se calhar já não eram do seu agrado, mas já não tinha força para preparar outro tipo de saída. Mas não saiu empurrado, como aconteceu com outros líderes africanos.

Era um homem só nos últimos tempos?
Sim, e muito debilitado. É bom que não se caia numa perseguição, porque não resolveria nada e abria um precedente.

Acredita que a educação alguma vez será prioridade?
Tem que ser. Não sairemos do fosso enquanto não melhorarmos a educação. São precisas medidas urgentes para aumentar a qualidade de ensino, mas falta dinheiro para investimento. Os próximos tempos não vão ser fáceis para o Governo.