Baladas dos corações solitários

Baladas dos corações solitários

Enquanto não chega o próximo romance de Haruki Murakami, "A morte do comendador", a "Companhia dos Livros" leu a mais recente reunião de contos do popular autor japonês, "Homens sem mulheres". Um livro em que fica bem evidente o seu domínio do género, pese embora alguma oscilação qualitativa.

A obra de Haruki Murakami nunca foi dada a consensos, dividida como está entre os aduladores fervorosos e aqueles que nunca lhe perdoaram ter escrito um livro que se converteu num best-seller. O mais recente título publicado em Portugal não vai eliminar decerto esse declive, mas prova que o eterno nobelizável é um eficiente narrador, mesmo que não seja imune à tentação da lamechice.

Reunião de sete contos em que o denominador comum é a relação entre os dois sexos, "Homens sem mulheres" é, na essência, um livro sobre a solidão. Sobre os muros invisíveis que se erguem na convivência humana, geradores de mal entendidos e frequentes desilusões ou amarguras.

No centro de todas as narrativas encontramos homens numa encruzilhada. Alguns, por serem viúvos, atravessam os dias como sonâmbulos, engolidos que foram pela dor. Outros, receando confrontar-se com os seus próprios abismos, são arrastados pela maré da superficialidade e só se mantêm debilmente à tona devido ao amparo feminino. A força interior das mulheres, em contraste com a já nomeada fragilidade dos homens, percorre estas histórias, nas quais sobressai ainda a prosa fluida do autor de "Sputnik, meu amor".

Apesar da evidente unidade do livro, há contos que se destacam. Antes de todos, "Samsa apaixonado", fascinante narrativa sobre o regresso do protagonista de "Metamorfose". Num mundo mergulhado no caos, nos alvores da I Guerra Mundial, presume-se, o estremunhado jovem tenta aperceber-se do que se passa à sua volta, perdendo-se de amores por uma corcunda cética.

De amor, ou da falta dele, também fala "Um órgão independente". O texto introduz-nos na vida de um cirurgião "playboy" que foge do compromisso com todas as suas forças, Pelo menos até ao dia em que se deixa capturar por uma mulher mais nova, traçando nesse momento o seu triste destino.

No derradeiro conto, que dá título ao livro, Murakami conta a história de um homem que é surpreendido a meio da noite com uma chamada telefónica em que lhe é anunciada a morte de uma antiga namorada, abrindo assim caminho a uma longa jornada nostálgica. "É nisso que consiste perder uma mulher. Em certos casos, perder uma mulher significa perder todas as mulheres. E assim nos tornamos homens sem mulheres", sentencia.